O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

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                           O Gacho
                                     Jos de Alencar


                                       Livro Terceiro




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Livro Terceiro
MORENA


I
A MULA

Cruzando a coxilha grande, que atravessa a provncia de So Pedro, se alonga a serra
do mar, como a bossa grantica daquele espinhao.

Ao norte ficam as altas regies, as chapadas da montanha; ao sul dilata- se a imensa
campanha que vai morrer nas margens do Uruguai e do Paran.

Estas vastas campinas, que se desdobram pelas abas da coxilha grande, so como as
pginas de um captulo da histria do Brasil.

O dorso da coxilha  o lombo do livro; as folhas espalmam- se de um e outro lado. A
escreveram as armas brasileiras muita coisa admirvel: grandes feitos, combates
gloriosos, brilhantes painis em rude tela.

Que recordaes hericas no despertam os nomes de So Borja, Ibicu, Rosrio,
Corumb, ndia- Morta, So Carlos, Catal, Taquaremb e Paissandu!

A impercia e negligncia lanaram,  verdade, feias ndoas no brilho daquelas
pginas, e algumas por infelicidade bem recentes ndoas. As fronteiras onde outrora
foi Artigas batido sucessivamente em vrios combates, percorreu-as impune h quatro
anos o brbaro paraguaio, desde So Borja at Uruguaiana; e ao cabo dessa afronta,
sitiado por foras trs vezes superiores, esfaimado e inanido, logro u uma capitulao
honrosa.

Ainda bem que o herosmo brasileiro acaba de escrever nas laudas selvagens do
Paraguai uma grande epopia. A lembrana daqueles erros do passado, j de todo a
apagaram as vitrias memorveis de Riachuelo, Tuiuti, Curuzu, Humait, Itoror,
Peribebu e outras jornadas gloriosas.

Sete anos havia que na campanha rio- grandense cessara o estrpito das armas.
Depois que Buenos Aires, temendo a reao do patriotismo brasileiro afrontado com as
tristes jornadas de Sarandi e Itusaing, pedira a paz, a provncia de So Pedro gozou
de alguma tranqilidade. Embora s vezes repercutisse na fronteira a agitao dos
estados vizinhos, as labutaes pacficas da indstria sucederam geralmente s lides
guerreiras.

Entretanto quem percorresse a campan ha no ms de agosto de 1835, observaria certo
movimento que no era normal, e desaparecera desde a paz de 1829. Pelas estradas
encontrava- se a cada instante gente armada, que ia se reunindo pelo caminho, e
formando pequenas partidas; assim como em sentido inverso, famlias que emigravam
de um para outro ponto da provncia.




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O aspecto animado daquela gente, a sofreguido que se traa em sua marcha, o ar
resoluto das fisionomias queimadas pelo suo, eram sintomas bem claros da prxima
luta.

Essa agitao que se propagara por toda a fronteira, desde Jaguaro at So Borja,
convergia para as proximidades da capital, mas especialmente para as margens do
Piratinim. A, ao que parecia, era o ponto de reunio; as prximas estncias situadas 
                                                                            -
beira do rio, estavam desde muitos dias cheias de hspedes e pees, recm chegados.

Onde o movimento se fazia mais sentir, era na estrada que, partindo de Porto Alegre
como a aorta dessa nascente civilizao, se bifurca na Encruzilhada, e lana as duas
artrias tibiais uma para Uruguaiana e outra para Jaguaro. Por esta segunda estrada,
em um dos ltimos dias de agosto, caminhavam alguns viajantes que se dirigiam da
vila do Erval  de Piratinim.

Adiante algumas braas, ia uma moa que teria pouco mais de dezesseis anos, apesar
do completo desenvolvimento de sua beleza. A roupa de montar era de ganga; a saia,
que se desfraldava em largas dobras, no apagava de todo os contornos das formas
graciosas, cujo firme relevo traa- se com o movimento da equitao. O jaquu justo,
talhado  guisa de fardeta curta de soldado e enfeitado de alamares e dragonas de
retrs, desenhava com a correo do cinzel antigo um busto encantador.

Era a moa de um moreno suave, que nos momentos de repouso, em contraste com o
jaquu escuro, se desvanecia; porm quando a agitava alguma comoo, sua ctis
velutava- se com o fulvo arminho de uma cora. Nunca sob rseas plpebras brilharam
com to vivo fulgor, mais lindos olhos crioulos, grandes e rasgados; nem brincou,
entre lbios feiticeiros, sorriso mais brejeiro e provocador.

Sobre o tranado opulento que lhe cingia a nuca, trazia a moa um chapu verde-
claro, de plo de seda e copa alta, com uma fita branca e um ramo de rosas por tope.
Atualmente esta parte do traje da formosa cavaleira seria um atentado inaudito contra
o bom- gosto e tornaria horrvel a mais gentil das amazonas, que pelo vero galopam
nos passeios de Petrpolis. Naquela poca porm era a moda, e em geral a achavam
to bonita, como a das botas que hoje trazem as senhoras. O caso  que o tal
chapeuzinho verde, todo enfeitado, dava ao rosto da moa um arzinho pimpo, que
enfeitiava.

A seu lado ia outra cavaleira mais idosa e cheia de corpo; essa porm montava de
escancha como um homem. Era o uso antigo nas provncias do sul. As bandas do
vestido aberto de chita, que lhe caam a um e outro lado, descobriam at o joelho as
pernas da gorducha amazona.

Seguiam a alguma distncia dois cavaleiros com um traje ambguo entre paisano e
militar; um deles vestia a farda da antiga milcia; o outro apenas tinha barretina e
patrona do mesmo uniforme. Ambos porm traziam sobre os ombros o infalvel poncho
de pano azul, forrado de pelcia vermelha.




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Pouco mais era de meio- dia. O sol abrasava, embora a espaos as baforadas da brisa
mitigassem a calma. Crestada pelo sol, a macega parecia o plo arrepiado de um mula
xucra.

Os dois viajantes haviam interrompido por momentos uma prtica bastante animada;
o da farda, homem de 50 anos, magro, de barba cerrada, cogitava; o outro, rapaz de
25 anos, tendo passado as rdeas pelo dedo mnimo da mo esquerda, estava ocupado
em preparar com a faca a palha para um cigarro.

-- Assim mesmo, Sr. Lucas Fernandes, estou quase apostando que a coisa h de dar
em nada, disse o mais moo, tirando uma fumaa. Tantas vezes que os homens depois
de tudo arranjado se arrependem!

-- Hein! respondeu o mais velho, caindo em si da distrao. Que diz?

-- Digo que ainda tenho meu medo de ver tudo isto dar em gua de barrela.

-- Medo tenho eu, Flix, de chegarmos tarde, quando j o negcio estiver acabado.
Queria ter o gostinho de entrar com o coronel em Porto Alegre, para ensinar aquela
cambada.

-- Tal e qual o senhor me disse, vai fazer um ano, e no passamos do Erval; agora
talvez que fiquemos por Piratinim ou Camac.

-- Se estou dizendo que o negcio desta vez  srio! Quando saa de Jaguaro, o Neto
me disse: "Quem for patriota h de estar em Piratinim at o fim de agosto." V voc?

-- E onde foi ele?

-- Ningum sabe ao certo; mas eu suspeito que foi longe entender- se com os
castelhanos; no que precisemos deles, mas para ter as costas guardadas. Sempre 
bom.

-- Pois olhe, Sr. Lucas, eu c antes queria ter pelas costas um touro bravo, do que um
castelhano manso. A maneira de guardar a gente as costas,  dar neles de rijo. O Neto
bem sabe disso.

-- Ele l sabe o que faz, que o tal de Buenos Aires, o Rosas, tambm est metido
nisso. No caso de ser preciso, o sujeito nos ajudar a escovar o plo aos imperiais.

-- A falar a verdade, eu antes queria sov- los, a eles. Enquanto me lembrar do que
fizeram a por Bag e Alegrete, que me contou meu pai, no se acaba esta gana que
tenho de tirar uma desforra. Quer que lhe diga, Sr. Lucas Fernandes, eu estou que
sentiria mais prazer em meter a faca no lombo de um castelhano, do que em abraar a
mais bonita rapariga de Buenos Aires.

-- E cuida voc, que eu tambm no lhes tenho vontade? Mas  preciso pacincia para
suportar por algum tempo ainda; depois que nos tivermos livrado c da cfila dos




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imperiais, ento  que os castelhanos ho de ver a cor do riscado. Eles pensam que 
uma coisa, mas h de sair- lhes outra muito diversa.

A este ponto foram os dois viajantes obrigados a interromper a conversa, por causa de
um pequeno incidente.

A mula em que ia a moa tinha empacado  beira da estrada, e resistia aos esforos
da cavaleira. Com as orelhas espetadas, olhos ardentes e plo erriado, o lindo e
possante animal parecia farejar algum perigo oculto.

-- Que  isto, Catita? perguntou Lucas.

-- Esta mula hoje no est boa, Sr Lucas, no sei o que tem, disse a gorducha. Todo o
caminho veio torcendo-se, e agora no quer andar!

-- Que remdio tem ela? acudiu Flix.

-- No  nada, mame! disse Catita.

-- Depois levas a um trambolho?

-- Ora qual, Vidoca! atalhou Lucas.

-- Esqueci- me da minha esporinha, por isso est brincando comigo, tornou Catita a rir.

-- Espere que eu a ensino.

Flix avanou, vibrando com fora o rebenque.

-- Heta, mula!

Aquela interjeio enrgica soou ao mesmo tempo nos lbios do rapaz e na anca da
mula, onde o ltego estalou com fora.

A mula partiu escoiceando, no meio das risa das dos dois viajantes. Era destra cavaleira
a Catita; apesar dos saltos do animal, ela manteve-se firme na sela, e sem perder a
elegncia de seus movimentos. Contudo dificilmente continha a mula, que irritada com
o castigo corria forcejando por tomar o freio.

Nisto ouviu- se ao longe o rincho sonoro de um cavalo.

Buffon distinguiu no cavalo cinco espcies de rincho, que exprimem suas diversas
paixes. O rincho da alegria, no qual a voz se eleva sustentando-se por muito tempo e
expira em sons agudos. O rincho da clera, breve, crebro e estridente, acompanhado
pelo estrpito das patas. O rincho do temor, breve tambm, porm rouco e cheio,
semelhante ao rugido do leo. Finalmente o rincho da dor, que  antes um gemido ou
estertor da respirao opressa.




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H porm alm destes um nitrido vibrante e incisivo que  a interjeio do cavalo,
quando chama o companheiro distante. Era desta espcie o que tinha repercutido
naquele momento pela campanha.

Respondeu- lhe perto um nitrido mais possante que vibrou pelos ares.




II
O ALAZO

A moa erguendo os olhos, viu sobre o alto de uma pequena coxilha, ao lado do
caminho, assomar um cavalo.

A formosa estampa se debuxa contra o azul difano do horizonte, como uma esttua
de bronze sobre alto pedestal. O porte  majestoso; a atitude briosa e arrogante. Com
a fronte erguida, coroada pela crina soberba que o vento agita como a juba do leo, o
altivo corcel lana pelo vale um olhar sobranceiro. A mo esquerda finca na terra, com
o jarrete de ao distendido, enquanto a destra, batendo amide mas cadente, escarva
ligeiramente o cho.

A roupagem  do mais puro e brilhante alazo, sobre o qual destaca a seda opulenta
das crinas e da longa cauda, bem como a orla de branco arminho que cinge- lhe a raiz
do casco alto, de rijas tapas, fino e bem copado.

Outrora os mestres da nobre arte da gineta acreditavam que dos quatro elementos da
natureza derivavam as cores predominantes na raa hpica, e da tiravam indcios a
respeito das qualidades e defeitos do animal. Assim o preto indicava a terra, o branco
a gua, o castanho o ar, e o alazo o fogo.

Quem visse o lindo ginete, cujo plo cintilava com os raios do sol, acreditaria que
realmente aquele soberbo animal tinha nas veias o fogo que dardejava na pupila
negra, e cujo fumo resfolgava dos grandes alentos na respirao ardente. Os
hipogrifos, que combatiam entre chamas, deviam vestir aquela aurola esplndida,
que envolvia o brioso corcel.

Tinha esse cavalo os traos que entre os rabes indicam o animal de fina raa. Cabea
pequena e descarnada; fronte larga, alada com ardimento e nobreza; grandes e
proeminentes, os olhos lmpidos que afrontavam o sol; orelhas curtas, rijas,
canutadas, e tocando- se nas extremidades, pescoo largo e na volta garboso, como o
colo do cisne; as pernas delgadas e nervosas, mostrando no relevo dos msculos sua
firmeza e elasticidade; o peito amplo e vigoroso; a anca redonda, mas fina; os flancos
delgados, esbeltos e flexveis.

No pertencia, porm, o corcel  aristocracia hpica do Oriente; era um selvagem
americano, um filho dos pampas. Viera das tropas bravias que povoam as estepes do
Sul; provinha dos bagus que montavam os guaicurus. Tinha melhor genealogia que
as coudelarias dos califas; descendia da natureza virgem; nascera no deserto.




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No recebeu a Amrica, do Criador, as trs raas de animais, amigos e companheiros
do homem, o cavalo, o boi e o carneiro. Este fato, que  primeira vista parece uma
anomalia da natureza, revela ao contrrio um desgnio providencial. Regenerar  a
misso da Amrica nos destinos da humanidade. Foi para esse fim, que Deus estendeu
de um plo a outro este vasto continente, rico de todos os climas, frtil em todos os
produtos, e o escondeu por tantos sculos sob uma prega de seu manto inconstil.

O gnero humano pressentiu esta alta misso regeneradora da Amrica, dando-lhe a
designao de Novo Mundo. De feito  nas guas lustrais do Amazonas, do Prata e do
Mississipi, que o mundo velho e carcomido h de receber o batismo da nova civilizao
e remoar.

Para no exaurir, mas concentrar, a seiva exuberante da terra virgem, despovoou- a o
Criador daquelas raas nobres, que ela estava destinada a juvenescer. Mas apenas a
semente caiu na vigorosa argila que a esperava, desenvolveu- se com uma possana
formidvel. Como ao homem europeu e a todos os animais domsticos que formam a
famlia irracional, como a todos os produtos teis do velho continente, a Amrica
adotou o cavalo; mas a este parece que o concebeu no seio do deserto, e o fez
selvagem de seus pampas.

Tem o potro americano sobre o potro rabe a grande superioridade da natureza. A
liberdade  fora e beleza; nem h no mundo outra nobreza real e legtima, seno
essa. A elegncia da forma, a altivez da expresso, a coragem, o pundonor e o brilho,
so donaires que ao homem, como ao cavalo, d a conscincia de sua liberdade.

Do espartano, que ainda hoje nos enche de admirao com o exemplo de seu herosmo
e sobriedade, fazemos o maior elogio nesta frase -- "era um cidado livre". Daquele
brioso cavalo se podia dizer da mesma forma, para exprimir com eloqncia a sua
formosura e nobreza; "era um corcel livre".

Nenhum homem o escravizara jamais; nenhum se atrevera a castig- lo; era indmito
ainda como no tempo em que percorria os pampas nativos. Mas o potro selvagem
tinha um amigo, quase um pai, a quem o ligara um profundo sentimento de gratido.
E da sem dvida lhe provinha a altivez e majestade que ressumbrava em seu porte.

O contato de nossa raa desvanece no animal o espanto selvagem que sente ainda o
mais intrpido na presena do rei da criao. A amizade do homem inspira, sobretudo
ao cavalo, uma emulao generosa, um herosmo admirvel. O Bucfalo de Alexandre,
o Morzelo de Csar, e o Orlia do rei D. Rodrigo, foram dignos dos heris a quem
serviram.

No tivera a moa tempo de admirar a linda estampa do alazo, porque apenas se
desvaneceu ao longe o eco do relincho, ele desceu a coxilha  disparada, e
atravessando a estrada, sumiu- se por detrs de uma restinga de mato.

A, encontrou outro animal, no qual era fcil reconhecer a Morena, pelas formas
esbeltas e elegantes, vestidas da linda roupagem baia. Fora ela que chamara o filho.
Pouco depois apareceram o Morzelo e o Ruo, nossos antigos conhecidos, que tinham
seguido de perto o Juca.




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Todos juntos se aproximaram do lugar onde estava o Canho deitado sobre o pelego 
sombra de uma rvore. O gacho no dormia, mas tinha os olhos fechados e o rosto
coberto com a aba do poncho. Parecia prostrado pela fadiga; tinha feito em duas
semanas mais de duzentas lguas. Quinze dias antes estava em Camac quando
recebeu um recado de Bento Gonalves que o chamava a toda a pressa.

O coronel lutava com um acesso de clera terrvel. Cruzava o aposento de uma a outra
banda, trovejando como um temporal desfeito.

-- Por quem me tomam eles!... Pensam que admito semelhante loucura? Esto
enganados!... Tinha que ver que eu fosse por minhas mos entregar o continente ao
mazorqueiro!...

Manuel surpreso daquela agitao, esperou que o coronel se apercebesse de sua
presena.

-- Ah! ests a?...

Bento Gonalves foi a uma banca onde estavam emaadas algumas cartas que ele
acabara de escrever.

-- Monta a cavalo, Manuel, e no pares enquanto no estiverem entregues todas estas
cartas. Comears pelo Rio Pardo e acabars em Alegrete, na estncia do coronel
Bento Ribeiro. A poders descansar. Tens dois soberbos corredores, o Juca e a
Morena; s o primeiro peo que eu conheo. Se no deres conta da mo, ningum
mais o far decerto.

-- Fique descansado, meu padrinho, disse o gacho.

E partiu.

Na vspera passara por Bag, de volta de sua comisso: tomara a estrada de Piratinim
por um atalho, deixando Erval  direita; e fizera ali uma parada, contando chegar 
vila por volta da noite.

Os animais pararam, a olhar afetuosamente o gacho; porm o Juca, mais afoito,
chegou- se perto e farejou- lhe o rosto para ver se dormia, ou talvez para avis- lo que
era tempo de pr-se a caminho. Habituado a estas familiaridades, Manuel descobriu o
rosto e correspondeu ao afago do alazo puxando- lhe carinhosamente a orelha.

De repente ecoou pelo campo um grito no meio de confuso tropel.

Erguendo- se rapidamente viu o gacho alguns animais de carga a correr pela vrzea, e
mais longe uma mula corcoveando para arrojar de si a moa que a montava. Um preto
se lanara com a inteno de tomar- lhe o freio; porm, o animal furioso o tinha
arremessado ao cho.

Quando o alazo passara pelo caminho a todo o galope, acudindo ao chamado da
Morena, uma tropilha, que seguia o mesmo caminho dos viandantes, se espantara. As


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bestas retrocederam de corrida; o rumor dos couros que cobriam a bagagem ainda
mais exasperou a mula que tomando o freio disparou, apesar de todos os esforos da
gentil cavaleira.

Com o pescoo enroscado, o queixo fincado aos peitos, e o corpo encolhido, a mula
assanhada dava saltos e corcovos terrveis. Ora contraa- se toda, e logo distendia- se
no arremesso, forcejando para romper os arreios que a ligavam. Catita, porm, no
perdia o equilbrio e fustigava com o chicote a cabea do animal.

Entretanto aos saltos a mula afastava- se da estrada. Na direo que ela seguia, o
t erreno elevado e pedregoso formava uma barranca sobre a charneca ou tremedal, a
que na provncia do o nome de sanga. Se a moa no conseguisse domar o animal, o
que no parecia provvel, na carreira cega em que ia, a catstrofe seria inevitvel.

Tudo isto passara rapidamente ante os olhos do gacho. Compreendendo o perigo que
ameaava a moa, ele no teve tempo de refletir. Passou a mo ao lao, atirado sobre
a grama junto aos arreios, e saltou no costado do Juca.




III
A PARADA

O alazo arrojou- se e fendeu os ares como uma guia; os ps nem pareciam tocar a
terra, de to rpida que era a corrida.

Com pouco vencendo a grande distncia, aproximou- se da mula, que no auge da fria,
disparava em trancos formidveis. A borda do precipcio j no estava longe, e no
tardaria que o animal num daqueles saltos precipitasse do barranco abaixo.

A gentil cavaleira sentira a iminncia do perigo, e parecia que se preparava para evit-
lo. Sua mo, colhendo as amplas dobras da saia do roupo, revelava a inteno de
saltar da sela. Naquelas circunstncias, em um terreno to spero e com a sanha do
animal, a resoluo da moa podia ser- lhe fatal.

Mas que fazer? Diante estava o precipcio do qual aproximava- se com espantosa
velocidade. Se tinha de morrer, Catita preferia que fosse antes ali sobre o campo, do
que no fundo de um barranco onde talvez seu lindo corpo chegaria dilacerado pelas
pontas de pedra e tocos das rvores. Essa idia triste porm, no se demorou no
esprito da moa, passou como uma borboleta agoureira roando as asas negras por
seu esprito e logo se desvaneceu.

                                                            -
A destemida cavaleira, fiada em sua agilidade, contava livrar se do furioso animal
saltando da sela no momento oportuno. Para ela, a catstrofe iminente, cujo desfecho
estava to prximo, ainda no passava de um divertimento. Com a descuidosa
imprevidncia da mocidade, no podia acreditar que um incidente comum se
convertesse para ela em uma desgraa.




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Observando os movimentos da moa, Manuel hesitou um instante. Seu plano
concebido de relance, na ocasio de saltar sobre o costado do alazo, era alcanar a
mula, e travando-lhe do freio subjug- la para que a moa pudesse apear- se sem
perigo. Se, apesar da velocidade do Juca, no houvesse tempo de apanhar a mula por
causa da pequena distncia em que j estava da barranca, ento como recurso
extremo, o gacho tivera uma idia:

--  laar mula e moa tudo junto! disse o Canho consigo.

Por isso tinha passado a mo ao lao no momento de partir; mas percebendo agora na
cavaleira o intento de saltar do animal receou ver burlado seu plano. Podia, no
momento de alcanar ele a mula, ter j saltado a moa que ficaria ento esmagada
pelas patas do alazo. Tambm no atirar o lao via o perigo de esbarrar a mula
bruscamente na ocasio de pular a cavaleira, a qual perdendo o equilbrio, sucumbiria
aos coices do animal enfurecido.

Nesta perplexidade, ainda mais se complicou o caso com um grito que feriu o ouvido
do gacho, reboando pela campanha:

-- Salta, Catita!

Era a voz estrepitosa de Lucas Fernandes que, advertido pelo grito do preto,
transmontara a galope, em companhia de Flix, uma pequena coxilha, e vendo o que
passava, compreendera o perigo da filha e a nica esperana de salvao que restava.

--  direita! acrescentara Flix.

Um movimento que fez a moa para voltar o rosto e um rpido aceno da mo
indicavam que ela ouvira a advertncia do pai, e apenas aguardava um momento
oportuno para seguir seu conselho. Ao Canho no escapou esta muda resposta, que
ps o remate  sua contrariedade.

-- No salte! exclamou ele em tom resoluto.

Ouvindo a recomendao do gacho em contrrio  sua ordem, o Lucas perfilou- se na
sela e arrancou do peito um berro formidvel:

-- Salta, com mil demnios!

-- No, replicou o gacho imperiosamente.

Catita, voltando a custo o rosto, viu de travs Manuel que estava apenas a trs braas
de distncia, e compreendeu que ele vinha em seu auxlio. Revoltou- se a vaidade da
                                                    -
moreninha contra esse importuno. Antes despenhar se do precipcio, do que dever a
salvao a algum.

Estaria a moa presa j da vertigem dessa corrida veloz, ou era a petulncia natural de
seu nimo juvenil, que a fazia brincar assim com a morte? Por uma ou outra causa ela,




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que um instante concebera a esperana de refrear a mula, castigou- a de novo com
fora. O animal, j colrico, exasperou- se, arrancando como uma pla.

Mas o alazo, sentindo a leve presso dos joelhos do Canho, projetou-se como a haste
de uma lana arremessada com vigor; e em dois tempos alongou-se pelo flanco da
mula, disposto a espedaar-lhe a cabea ao menor sinal do gacho.

Deitando- se sobre o pescoo do cavalo para tomar o freio  mula, sentiu Manuel uma
doce presso na ilharga, ao mesmo tempo que ressoava a seus ouvidos uma risada
zombeteira. Catita estava sentada na garupa do alazo, com a mo passada pela
cintura do gacho.

Como isto acontecera, ningum poder compreender, to rpidos e imprevistos foram
os movimentos da moa.

Convencida do risco de atirar- se do animal abaixo, Catita hesitava quando percebeu
Manuel. Precipitando a corrida da mula para evitar que o gac ho a salvasse, ela no
pretendia sacrificar- se como parecera. Tinha avistado adiante uma rvore, sob cujos
ramos ia passar.

Foi ali que Manuel alcanou a mula. J suspensa a um dos galhos a moa sentou- se
tranqilamente nas ancas do cavalo, e ali ficou de garupa, como naquele tempo era
usa viajarem as mulheres que tinham medo de montar.

Com a surpresa que sofreu, Manuel esteve um instante perplexo, no sabendo a que
atender, se  moa que ria-se ainda, se  mula que fugia sempre. Foi quando o animal
com as mos j erguidas sobre o precipcio ia despenhar- se, que Manuel, atirando o
lao, o suspendeu em meio da queda.

Para isso o gacho se lanara do cavalo abaixo; e apoiando a trana da rvore,
imprimira tamanho arranco ao lao que a mula, cingida pelos peitos, rodou,
estendendo o costado pelo cho.

Nisso chegaram Lucas e Flix; em um momento estava a mula subjugada pelos dois
viajantes, que, depois de tirados os arreios, meteram- lhe o rebenque de rijo.

-- Deixa-te de partes, mula! dizia o Flix.

Catita tinha saltado da garupa do alazo, e observava de semblante risonho a luta dos
trs homens com o animal. Havia em seu rosto gentil uns assomos de orgulho
satisfeito, por ter escapado, inclume e sem auxlio, ao perigo.

-- Que tal a rapariga, hein? perguntou o Lucas Fernandes.

-- Sacudida, como ela s! respondeu o rapaz. Pensei que no agentasse.

-- E eu tambm! Caramba!




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                       Pg. 12 de 107


-- Ora, papai! disse a moa com um ligeiro muxoxo. No caio por to pouco; nem
preciso que me segurem para saltar da sela.

Estas palavras foram ditas com direo ao Canho, que enrolava o lao tranqilamente.
Acompanhando o olhar da filha, reparou Lucas no taciturno gacho.

-- Ento o senhor no queria que a menina saltasse, camarada? disse o furriel de
milcia com um riso cheio.

-- No, respondeu concisamente o gacho.

-- E por que razo?

Manuel encolheu os ombros.

-- Ele tinha medo que eu casse debaixo dos ps do alazo. Papai no o viu correndo
para agarrar a mula pelo freio; mas quis mostrar que tambm sou gauchinha! Saltei-
lhe na garupa!

-- Deveras?

-- Tal e qual! disse Manuel sorrindo.

-- Assim, rapariga.

Aproximava- se a Maria dos Prazeres, choteando no machinho:

-- Sempre escapaste, menina?

-- Ento, mame.

-- Jesus! Vi- te em pedacinhos, debaixo dos ps da endemoninhada da besta. Sou
capaz de jurar que est espiritada.

-- Mame teve muito susto?

-- Ainda tu falas! Estou sem pinga de sangue.

Entretanto o Canho, tendo enrolado o lao, tocou na aba do chapu e saltou sobre o
Juca.

-- At mais ver, senhores!

-- Tambm ns vamos, disse Lucas Fernandes. Anda, Catita.

A rapariga arregaando a saia de montar, e apoiando a ponta do p no bocal do
estribo, pulou na garupa do cavalo em que montava o pai.




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                                                                        Pg. 13 de 107


-- O senhor que rumo segue? perguntou o miliciano.

-- Parei aqui para descansar, respondeu o Canho, iludindo a pergunta.

-- E o mais  que precisamos fazer o mesmo. No achas, Vidoca?

-- Que dvida, Sr. Lucas. Eu estou que no posso comigo; ento com este susto, esto
me tremendo as carnes, como se tivesse frio de maleita.

Contrariado por esta companhia que lhe viera to fora de propsito, e cogitando algum
meio para descartar- se dela, o Canho dirigia- se para restinga de mato onde estivera
deitado. Era o nico lugar, que por ali havia, prprio para descanso, no s pela boa
sombra, como pela proximidade d'gua.

Examinando com ateno disfarada o gacho, Fernandes desconfiava que sob aquela
reserva taciturna havia algum mistrio, que ele procurava com afinco perscrutar.

Naqueles tempos de agitao, que precederam a guerra civil, a suspeita do miliciano
era natural. A conspirao lavrara surdamente por toda a provncia; e receava- se de
um momento para outro a exploso.

Depois de alguns instantes de observao, Lucas reatou a conversa.

-- Ns c vamos para Piratinim visitar a madrinha de Catita, minha irm Fortunata,
que nunca viu a afilhada, depois que se fez moa. Se o senhor tambm segue este
caminho, iremos juntos.

-- No sei ainda que rumo tomarei. Tem seus conformes.

-- Est bom. Vejo que no quer que se saiba.

Neste ponto, pela estrada que lhes atravessava em gente, na distncia de duas braas,
passou um cavalo ruo pedrs, baralhando em rpida guinilha. Ia montado por um
peo com poncho de baeta encarnada e levava de garupa uma rapariga de seus vinte
anos. Com o vento, a saia de chita da rapariga levantava, mostrando as pernas bem
torneadas e descalas.

Catita reconheceu a Miss, e disse- lhe adeus:

-- Tambm vamos chegando para a festa, exclamou a rir o peo, e no era outro
seno Chico Baeta.

Sabendo que a revoluo ia rebentar em Piratinim, o rapaz deitou a roupa na carona, a
namo rada na garupa, e transportou- se com tudo quanto possua para sua nova
residncia.

Tinham os viajantes chegado ao capoo onde Flix e Maria dos Prazeres tratavam de
arranjar, sobre a grama, a refeio que tiravam dos alforjes.



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                                                                       Pg. 14 de 107




IV
CONHECIDOS

Catita, semp re to pronta para ajudar a me quando era preciso, agora sentada 
parte sobre a relva, fitava longos olhos no gacho, ocupado em arrear o alazo, para
se pr a caminho quanto antes.

No olhar da rapariga brilhavam diversos sentimentos, como em um raio de luz cintilam
vrias cores do prisma.

Admirava- se Catita da indiferena de Manuel. Ela sabia que era bonita; e quando no
fosse tanto como lhe diziam constantemente, no se julgava indigna de merecer um
olhar, ao menos de curiosidade. Esse homem que tinha corrido em socorro seu,
parecia nem j se lembrar que ela existia e ali estava perto dele.

Contudo no perdera a esperana de atrair a ateno do gacho, e por isso lhe estava
deitando aqueles olhares dengosos, capazes de enfeitiar um morto. L tinha um certo
pressentimento que o rapaz, voltando- se para ela, no partiria assim com aquele
desapego.

Mas no era s a faceirice que tinha a rapariga enlevada na contemplao do gacho.
Essa fisionomia sombria, mas enrgica, a impressionara. Ela adivinhava, sob aquela
aparncia concentrada e fria, o fogo intenso da paixo, sopitado, como a chama do
betume que lastra por baixo d'gua.

Ao mesmo tempo esse perfil saliente, de traos acentuados, acordava no fundo de sua
memria vagas e indecisas reminiscncias, que deviam estar ali desde muito tempo
adormecidas. No sabia a moa se j tinha visto este semblante, ou algum com ele
parecido.

Um momento, a vista do gacho encontrou o olhar fito da rapariga, e desviou- se com
desgosto, como se a tivesse ferido alguma luz muito viva.

Nesse movimento descobriu imvel, em frente dele, Lucas Fernandes que traou
rapidamente com a mo direita um sinal cabalstico. Manuel sem mostrar surpresa
nem dar grande importncia ao acidente, reproduziu o sinal.

Aproximou- se ento o miliciano com vivacidade, e travando da mo ao gacho, deu-
lhe o toque simblico, soprando ao ouvido uma palavra misteriosa.

Com esse reconhecimento, que revelava a existncia de um vnculo secreto entre
ambos, o Lucas Fernandes pouco adiantou na confiana de Manuel, que se manteve na
mesma reserva.

Embora dedicado e com entusiasmo ao servio de uma causa, nem por isso a pouca
estima que a raa humana inspirava em geral ao gacho, se tinha amortecido. Ao




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contrrio, mais em contato com ela, sua alma sentia- se por assim dizer esfrolada ao
atrito das paixes torpes e ignbeis que truaneavam diante dele.

Para Manuel a causa a que se dedicara era um homem, e nada mais. A afeio que
recusava  sua espcie se concentrara ultimamente em um indivduo. Bento Gonalves
se tornara para ele um smbolo, uma venerao. Tinha pelo velho guerreiro admirao
profunda; e enchia- o de orgulho a idia de estar ligado a ele por um lao espiritual.

No sabia Manuel o que intentava o coronel; e nunca se preocupara com isso. Para
qu? Sua misso era acompanhar, servir, defender o seu homem, e morrer quando
fosse preciso para salv- lo ou para ving-lo. por isso, apenas Bento Gonalves fora
demitido do comando da fronteira de Jaguaro e do 4 corpo de cavalaria, o gacho,
                                                                   -
pressentindo que ele tinha necessidade nesse momento de rodear se de seus amigos
mais leais, partiu logo para Camac, onde se retirara o coronel.

Bem se v que importncia ligava o Canho  sociedade secreta em que o tinham
filiado. No seu modo de ver no passava de um meio de se enganarem os homens uns
aos outros. Para servir o coronel ele no queria nem companheiro, nem ajudante:
gostava mais de fazer as coisas s.

Como a refeio estivesse pronta, Maria dos Prazeres chamou o marido; e Flix
aproximou- se impedindo as perguntas que Lucas ia dirigir ao Canho.

-- Vamos ao churrasco? disse o miliciano.

-- Nada; j estou pronto, e no tenho tempo a perder.

-- Precisamos falar, retorquiu o furriel com inteno.

-- Ser para outra vez.

Fazendo um cumprimento de travs, montou o gacho o alazo, que escarvava a terra
para devor- la. Nesse momento, da tropilha que esperava a curta distncia, avanou o
Morzelo, que veio meneando a cauda farejar o furriel.

De mau humor pela reserva e partida do Canho, o miliciano no reparou no cavalo;
mas este comeou a dar sinais manifestos de sbita alegria, soltando um ornejo que
bem parecia um riso de prazer. Esta circunstncia impressionou logo a Manuel; ele
sabia que seus cavalos tinham o mesmo gnio arisco e desconfiado do dono; pelo que
pareceu-lhe estranha aquela repentina afabilidade do Morzelo.

-- O senhor conheceu meu pai? perguntou de chofre o gacho a Lucas.

-- Seu pai?... repetiu o miliciano.

Os dois olharam- se; s ento se tinham lembrado, que nenhum sabia o nome do
outro, apesar de estarem juntos e c onversando havia meia hora.

-- Joo Canho, de Ponche- Verde!


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-- Era seu pai? Ora, se o conheci, meu amigo velho de outros tempos, quando no
continente havia homens, que hoje parecem mais bonecos de cheiro que outra coisa,
sobretudo os tais l de Porto Alegre. Joo Canho? Sabe de que idade nos
conhecemos?... Espere!... 1798... eu tinha 12 anos e ele 14. Andamos juntos na escola
em Rio Pardo.

-- Mas ento o senhor  o furriel?

-- Isso mesmo. Depois, ele seguiu l seu rumo at que nos encontramos no tempo de
Artigas. Os dois Bentos, bem sabe, andavam sempre juntos; eu servia s ordens de
um, ele era camarada do outro.

-- Estivaram em Taquaremb?

-- Em Taquaremb, em So Borja, em Catal, onde filamos o Verdum. Naquele tempo
no se fazia tantas partes, como hoje, para brigar. A gente passava o trabuco a
tiracolo, encilhava o pingo, e era s farejar para sentir onde cheirava o chumasco.
Agora para se fazer uma rusgazinha de nada, so tantas as histrias que j
aborrecem.

-- Mas c o Morzelo, ele tambm o conhecia, que est a a fazer- lhe tantas festas?

-- Ah!  verdade! exclamou o furriel atentando para o animal. No tinha reparado;  o
cavalo do Canho? Pois no me havia de conhecer! Fui eu que o salvei, e deu- me que
fazer! Uma doena dos diabos.

-- Lembro - me. Quando o pai foi a Montevidu? Por sinal que ele voltou no cavalo do
senhor.

-- Se o Morzelo no podia nem se mexer. Ento voc conheceu o Lucas, hein, meu
velho? disse o furriel amimando o pescoo do cavalo.

Manuel era outro. Uma expresso de alegria expansiva se tinha derram  ado por seu
rosto, antes carrancudo. Sem sentir, apeara- se para melhor prestar ateno s
palavras do furriel, e se embebera completamente nas reminiscncias que lhe falavam
de seu pai.

-- Ento no quer mesmo? perguntou o miliciano, designando com um gesto o lugar
onde estava a mulher convidando- o para comer.

-- Jante o senhor, que eu espero.

         -
Sentaram se os cinco viajantes na grama, ao redor de alguns pratos com churrasco,
bolachas, bananas e laranjas.

O Lucas tanto comia, como falava; e Manuel escutava com prazer a evocao de fatos
que ele tantas vezes, em criana, ouvira dos lbios paternos.




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                                                                       Pg. 17 de 107


De quando em quando porm, sentia o gacho um constrangimento, encontrando os
olhos negros de Catita fitos em seu rosto com uma insistncia que ele no
compreendia. Esse olhar curioso e ao mesmo tempo provocador, fazia-lhe o efeito de
uma farpa no flanco de um touro.

-- Come, Catita. Ests a pasmada!

-- No  para menos, acudiu Flix. O susto que ela teve! Escapou de pinchar- se do
barranco abaixo.

-- Maria Santssima! exc lamou Vidoca.

-- L isso, no, atalhou o Canho; na sanga no caa.

-- Se j estava quase na beira!

-- Mas eu tinha meu lao.

Os outros riram. Catita indignou-se:

-- Ento o senhor queria laar- me?

-- Pois que dvida!...

-- Se fosse capaz, eu...

A rapariga articulava estas palavras plida e com um tom de ameaa, mas no pde
concluir; a voz finara- se no lbio balbuciante. Ergueu- se despeitada, vendo o ar
desdenhoso com que Manuel pela primeira vez a encarava.




V
REBULIO

Fatos de suma gravidade se passavam por aquele tempo.

O partido republicano, de quem Neto era a alma, seno a cabea, tinha visto com
intenso desgosto a hesitao de Bento Gonalves em proclamar a revoluo.
Acreditando que justamente irritado com a demisso, o coronel romperia abertamente
contra a presidncia, esperavam os radicais se apoderarem do movimento para mais
tarde em ocasio oportuna o dirigirem a seus fins; o que realizou-se com efeito em
1836, depois da priso de Bento Gonalves, vencido no combate do Fanfa.

Conhecendo, porm, que da prxima regncia de Feij confiava o coronel obter
reparao dos agravos que sofrera e garantias para o seu partido, os republicanos
temeram perder a disposio favorvel dos espritos, criada pela demisso do homem
de mais influncia da campanha, e resolveram precipitar o acontecimento.



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O dia 7 de setembro, aniversrio da independncia, foi marcado para a revoluo, que
devia romper ao mesmo tempo na capital e outros pontos da provncia. No podendo,
nem lhes convindo, dispensar um chefe to prestigioso como Bento Gonalves, era sob
a invocao de seu nome, que tudo se fazia.

Neto estava em Piratinim, onde procurava reunir ocultamente alguma fora com que
marchasse sobre a capital e Rio Grande, sendo preciso. Sita em uma eminncia,
cercada por bibocas e serras cobertas de mato, essa vila oferecia condies favorveis
 defesa no caso de ataque. Por essa razo, e tambm por sua posio topogrfica, foi
ela escolhida para centro do movimento.

Para a pois tinham convergido os mais ardentes partidistas da revoluo, aqueles que
desejavam tomar nela uma parte ativa, e ter a glria de pelejar os primeiros combates
em pr da libertao da provncia. Entre estes, um dos mais prontos fora o Lucas
Fernandes, que, a pretexto de visitar a irm, se transportara com a famlia para o foco
da revoluo.

Chegando  vila na noite do dia em que os deixamos descansando para concluir a
jornada, o Lucas no consentiu que Manuel procurasse outro rancho, seno a casa de
sua irm. No s devia ele essa ateno ao filho de seu velho amigo, como sorria - lhe a
idia de ter por companheiro das novas lutas, o herdeiro do nome e da coragem de
seu antigo camarada Joo Canho.

Aceitou Manuel pousada por aquela noite, contando partir pela madrugada. Embora o
coronel lhe permitisse descansar na estncia de Bento Manuel, o que no fizera,
podendo portanto demorar-se em Piratinim; contudo desejava o mais depressa
possvel tranqilizar o esprito de seu padrinho a respeito do desempenho da comisso.

O Lucas, porm, no o deixou partir s; sabia que o gacho ia a Camac, e aproveitou
o ensejo para ver e aproximar- se do coronel. O antigo miliciano acudira ao apelo de
Neto; mas combater sob as ordens imediatas de Bento Gonalves era uma honra, que
ele compraria a custo dos maiores sacrifcios.

L se foram po rtanto os dois  estncia de So Joo, onde acharam o coronel ocupado
em trabalhos rurais. Teve Lucas uma primeira surpresa; pensava ele ver ali j pronto
um pequeno exrcito, e Bento Gonalves  sua frente, disciplinando- o para a guerra.
Lembrou- se porm que talvez fosse necessrio no originar suspeitas nos legalistas
para apanh-los desprevenidos.

Esperou que o coronel lhe falasse a respeito da revoluo; mas correndo os dias sem
que isto sucedesse, e aproximando- se o 7 de setembro, animou- se ele a tocar no
assunto.

-- Qual, revoluo! Deixe- se disso; v para casa e fique sossegado.

Desta vez azoou completamente o furriel; e por muitas horas no esteve em si. Foi
pedir explicaes a Manuel, que no podia d- las. Este nada sabia, nem indagava. Em
Bento Gonalves precisando de seu brao estava pronto sempre; cumpriria suas
ordens, sem inquirir da razo e fim.



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At que raiou o dia 7 de setembro, to ansiosamente esperado.

Lucas Fernandes largou- se para a Capela, como chamava ento o povo a freguesia do
Viamo, por causa da ermida de Nossa Senhora da Conceio, edificada em 1751. 
um stio aprazvel, a quatro lguas da capital, de que forma um arrebalde muito
concorrido em dias de festa.

Havia ali grande animao no dia 7 de setembro de 1835. Desde muito cedo viam- se
pelas ruas bandos de gente do povo, e especialmente peonada, percorrendo as ruas
em trajes domingueiros, e com uma faixa verde e amarela. As mulheres traziam o
emblema das cores nacionais a tiracolo, os homens na cinta ou no chapu.

Entrando em uma venda, onde estava de brdio uma grande poro de gachos a
galhofar e beber, o furriel criou alma nova.

-- Hoje  hoje! dizia um da roda piscando o olho para os outros.

-- Dia grande, dia de mata galego, acrescentou outro.

-- Vo pagar o novo e o velho.

-- Eu c prometi  Nicota que lhe havia de levar de presente um rebenque de guasca
feito do couro dum!

Risadas e interjeies pitorescas recheavam o brdio popular. O taberneiro, amarelo e
esgazeado, no sabia como se ater. s vezes enxergava nas fisionomias desabridas
dos gachos visos de ameaa, que emprestava s suas palavras uma significao
horrvel. Outras vezes porm o riso gostoso e franco dos homens o tranqilizava at
certo ponto, fazendo- lhe pensar que no passavam aqueles ditos de simples chalaa e
brincadeira.

-- Ah s galego! gritou a voz taurina do Lucas Fernandes, dando no balco um murro
formidvel.

Com a estremeo que sofrera, o taberneiro saltou trs vezes sobre os ps, como um
danador de corda.

-- Genebra a fartar para esta rapaziada sacudida. E no me respingue! continuou o
miliciano atirando uma meia dobla sobre o balco.

Com este rasgo o furriel ganhou logo as boas graas da scia; seu tom decidido, as
                                                         -
proezas que referiu, e o galo da velha fardeta, elevaram no enfim por unnime e
espontnea eleio ao posto de capito, que ele aceitou por bem da ptria. Foi o
primeiro ato da revoluo rio - grandense, essa promoo democrtica.

A histria talvez no consigne to importante circunstncia; por isso a registramos
aqui.




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Momentos depois o capito Lucas percorria triunfante as ruas de Viamo  frente da
troa de pees, que ele se propunha disciplinar, afagando a idia de transform-la em
companhia, e mais tarde elev- la a batalho, o que o obrigaria a tomar o posto de
coronel. Afinal, quem sabe?... Os generais se faziam daquela massa.

Ansioso esperava o seleiro o sinal para soltar o grito da revoluo, quando um
cavaleiro a toda a brida esbarrou na praa e meteu-se pelo povo falando ao ouvido de
um e de outro. Os gachos de orelha murcha iam- se esgueirando, e breve achava- se o
futuro batalho de Lucas reduzido a uma dzia de farroupilhas, que o acompanhavam
ainda ao cheiro da genebra, soltando berros descompassados.

--  capital, camaradas! bradou o furriel. Mostremos a estes poltres como se briga.

-- Viva o capito! Morram os galegos! respondeu a scia.

Instantes depois corriam  desfilada pela estrada de Porto Alegre; vrios bandos de
rapazes e parelheiros que tinham vindo  festa em Viamo foram por patuscada
reunindo- se  troa; e assim investiu a caterva pelas ruas da capital fazendo um
alarido infernal.

Seriam oito horas da noite.

No estado dos nimos, esperando- se a cada momento o rompimento da revoluo,
pode- se imaginar o efeito que produziria aquela cavalgada  disparada pelas ruas da
cidade. Acresce que o marechal Barreto avisara da fronteira que estava designado o
dia 7 de setembro para o rompimento.

Supuseram todos que a cidade era assaltada.

A guarnio correu a postos. Reboou um tiro de canho na casa do Trem; tocou a
rebate nos quartis; a guarda de permanentes marchou para o palcio e um piquete
de cavalaria saiu a fazer um reconhecimento sobre o inimigo. Por toda a parte no se
ouvia seno estrpito d'armas e tropel de animais.

                                                            -
Os festeiros, apenas sentiram o cheiro da plvora, muscaram se; houve muito cavalo
estropiado e muito parelheiro descadeirado; mas a troa desapareceu como por
encanto. S o nosso intrpido Lucas Fernandes, fantasiando ter ainda atrs de si o
batalho evaporado, fazia floreios de esgrima com a catana, preparando- se para dar
uma carga sobre o piquete.

No meio desse entusiasmo foi agarrado por dois permanentes que tiveram ordem de o
recolher ao xadrez. L ia ele seu destino pela Rua do Ouvidor meditando
filosoficamente sobre a sorte das revolues qual outro Mrio, quando um dos
soldados ps-lhe a mo no brao por segurana.

-- Largue- me! Por fora ningum me leva.

Era o momento em que passavam dois cavaleiros. Um deles ouvindo aquela voz,
esbarrou o animal:



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-- O que  isto, Sr. Lucas?

-- Manuel!... Trado, amigo, trado!

O gacho reservou a explicao para mais tarde.

-- Deixem o homem, disse ele para os dois guardas.

-- E quem  voc?

-- Eu j lhes digo! replicou Manuel passando a mo ao punho da faca.

O outro cavaleiro adiantou-se:

-- Espera l, rapaz.

Firmando- se nos estribos e tomando o tom do comando disse para os guardas:

-- Permanentes, este homem est solto.

-- O coronel! murmuraram os guardas.

Era com efeito Bento Gonalves que chegava da sua estncia.

Os guardas se retiraram cabisbaixos.

-- No lhe disse, homem, que se deixasse de rusgas? Iam- no filando! exclamou o
coronel a rir.

O furriel guardou nessa ocasio um silncio eloqente. Mais tarde porm revelou ele a
Manuel em confidncia um pensamento que levara a ruminar durante muitos dias.

-- Ningum me tira desta. Quem desmanchou a rusga foi o coronel! Que pena! Uma
coisa to bem arranjada.

Manuel sorriu lembrando- se das cartas que por ele enviara Bento Gonalves a toda
pressa, mas no disse palavra.

Desde que entrou no esprito do furriel aquela convico, Bento Gonalves desceu trs
furos em sua admirao e respeito.

-- Um homem que desmancha rusgas!... No tem que ver! O coronel voltou l da corte
com o miolo transtornado.




VI
DESENGANO


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Era noite fechada.

Jazia a vila de Piratinim em profundo silncio, submergida nas trevas. Apenas a
trechos ouvia- se, entre os primeiros silvos do temporal iminente, o pio montono da
coruja na matriz, ou um murmrio de vozes a escapar- se do coice de uma porta.

Era a a taberna, onde os pees jogavam a primeira ao claro de uma candeia de
graxa cuja luz oscilante e mortia, filtrando pelos interstcios da porta, cortava a treva
espessa como o vo de um pirilampo.

Tambm, quando passava a rajada, podia- se escutar o chiado sutil de uma guitarra,
tocada  surdina. Partiam estes sons de uma casa prxima  igreja de Nossa Senhora
da Conceio, que ento servia de matriz  parquia. Um vulto, embuado em um
poncho escuro de gola erguida, caminhava da esquina da rua onde ficava a casa at a
torre da igreja, e a chegando retrocedia. Na ida, como na volta, parava algum tempo
 janela da casa, e encostava o ouvido na rtula; ento, ouvia - se o tangido soturno da
guitarra que ele trazia por baixo do poncho.

Na sala interior dessa casa estavam trs pessoas.

                                                         a
As duas cunhadas e comadres, sentadas no vo da janel que abria para o quintal,
continuavam a prtica de todas as noites. Durante um ms que estavam juntas, no
tinham desfiado ainda todo o rosrio de histrias e novidades.

Vidoca no acabara de contar as festas e enredos de Jaguaro, nem as faladas dos
c astelhanos com as raparigas daquela fronteira. Quanto  Fortunata, esta no
esvaziaria em um ano o saco dos mexericos de Piratinim, e a crnica de toda a vila,
casa por casa.

Um tanto arredada, em um ngulo da sala, Catita cosia  luz da vela colocada em uma
cantoneira. s vezes a mo da rapariga, puxando a linha para cerrar o ponto, ficava
um momento suspensa no ar; e notava- se na sua cabea uma ligeira inflexo. Parecia,
pelo ar absorto da fisionomia, que sua ateno era atrada para outro ponto. Mas logo
voltava  costura, redobrando de rapidez no ponteado.

O que a distraa eram os sons da guitarra que pipilavam no silncio da rua, e s vezes
se destacavam entre as crepitaes da lenha no fogo da cozinha.

-- Lucas no vem mais hoje, que diz voc? perguntou Fortunata  cunhada.

-- Eu sei l, comadre, quando ele vem? H um par de dias j que se espera  toa. Com
esta histria de rusga, o homem anda mesmo que parece uma mosca tonta.

-- Mas em parte quem lhe mete tanta caraminhola no casco  aquele malandrinho. J
viu que sujeito mal- encarado, senhora?

-- Que quer? O Lucas engraou com ele. Arrenego de semelhante bisca!

-- E onde foi buscar aquele nome de... como  mesmo?



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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                         Pg. 23 de 107


-- No te lembras, Catita?

-- O qu, mame?

-- Como se chama aquele sujeito que foi com teu pai?

-- Manuel Canho.

-- Ora veja!

-- Se isto  nome de gente!

-- Mas voc no viu outra, comadre. Sabe que apelido ele deitou no cavalo? Juca!

-- To bom  um como o outro!

-- E tem uma gua que chama Moreninha!

-- Desaforo! Aquilo  de propsito.

-- Quando a mula em que vinha Catita ficou espiritada, pediu- se a ele a gua e no
quis dar. Disse que ningum, seno ele, monta nela! J se viu que partes?

-- Pois eu hei de montar! disse a rapariga batendo com o p no cho.

-- No h de ser por meu gosto.

-- E faz muito bem, comadre.

-- Enquizilo com o tal sujeito, que ningum faz uma idia; e o Sr Lucas enquanto no
lhe suceder alguma, no descansa.

Neste momento a guitarra chilrou com mais fora na porta. Catita fez um gesto de
impacincia; deitando arrebatadamente a costura sobre o banco onde estivera
sentada, disfarou dando algumas voltas pelo aposento e afinal dirigiu-se para a frente
da casa.

Foi direita  janela; abriu sorrateiramente a rtula e espiou para a rua. O vulto parado
 porta aproximou- se mal que a percebeu:

-- Que faz voc a, Flix?

-- Pois ainda pergunta?

--  escusado andar com estas coisas. Perde o seu tempo!

-- Ento, Catita, esta  a esperana que voc me d?




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                                                                       Pg. 24 de 107


-- No tenho outra.

-- No foi o que voc me disse em Jaguaro.

-- No me lembro disso.

-- Voc me disse, que chegando aqui havia de decidir.

-- Pois est decidido. No gosto de voc, como hei de ser sua noiva?

-- Catita!

-- No quero enganar a ningum.

-- Agora  que fala assim.

-- Algum dia disse que lhe queria bem?

-- Mas tambm por que no me desenganou logo?

-- Por qu?... Porque voc no me aborrecia como agora, que passa toda a noite
rondando esta porta. Quem visse, havia de dizer que voc  meu namorado.

Flix fez um movimento de clera; e depois de uma pausa murmurou com voz surda:

-- Bem sei a causa disso!

-- Ah! Sabe? Est mais adiantado do que eu.

-- No disfarce, Catita. Cuida que eu no tenho olhos para ver?

-- O qu?

-- Voc ficou assim desde que nos encontramos com Manuel Canho. Logo naquele dia
voc no tirou os olhos dele. Bem reparei.

-- S isso? perguntou a mo a com uma risadinha de escrnio.

-- Depois, pensa que eu no via como voc se enfeitava por causa dele? A cada
instante se requebrando, para ver ser o enfeitiava; mas ele, nem caso?

-- Flix, melhor  que voc se ocupe com sua vida. Me deixe descansada.

--  para ver se  bom querer bem a quem lhe paga com desprezo.

-- Pois se assim , no tem voc de que se queixar. Faa como eu que sofro calada.




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                                                                        Pg. 25 de 107


-- Ento confessa? Gosta dele? exclamou Flix furioso. Catita caiu em si.

-- No disse isto!

--  escusado negar. J sei o que queria; pode ficar descansada que no hei de
aborrec- la mais. Meu negcio agora  com ele.

-- Que pretende voc fazer, Flix?

-- O mesmo que me fizeram; traspassar- lhe o corao, mas com este ferro.

A faca do rapaz luzia nas trevas.

Recobrando- se do soobro que sentira, a moa proferiu estas palavras com a voz fria e
pausada, embora ferida ainda por um imperceptvel tremor:

-- Vinga-se bem, Flix.  o modo de matar- me mais depressa.

Fechou- se a rtula.

Nesse momento, reboou no princpio da rua um tropel de animais, e um grito
estrondoso farpou o silncio da noite.

-- Alvssaras, patriotas! Viva a revoluo!




VII
O SOLUO

Trs vezes o mesmo grito reboara, ecoando longe nas grotas e fraguedos que cercam
o stio da vila de Piratinim.

As duas comadres, tomadas de susto no meio de sua palrice, no souberam de
primeiro momento a que atribuir o estranho clamor, cujo sentido no compreendiam. A
idia vaga de toda a sorte de perigo, desde um simples canhambola, at o assalto por
um demnio-legio, perpassou como um raio por seu esprito alvoroado.

-- Santa Brbara!... murmurou a Fortunata e travou- se com o rosrio.

Vidoca, apesar de grande medo, entrevira uma esperana; e com o ouvido atento
aguardava a confirmao de uma suspeita. Foi quando pela terceira vez estrugiu o
mesmo brado.

-- ,  mesmo! Ora essa! exclamou erguendo-se.

-- O qu, senhora? balbuciou a Fortunata.




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-- O Sr. Lucas! Aquele grito  dele!

Correndo para a frente, a Vidoca achou a filha  janela. Catita tambm reconhecera a
voz de seu pai, e de novo abrira a rtula. Seu corao batia precipitadamente contra a
soleira; porm no era de medo. Com os olhos alongados pela rua procurava devassar
as trevas, para distinguir mais depressa as pessoas que sem dvida para a se
dirigiam.

Pensava ela que Manuel vinha com Lucas?

Entretanto, aos brados do furriel, toda a vila ps- se em alvoroo. A peonada,
abandonando a gordurenta mesa de jogo saa das tabernas aos trambolhes; abriam-
se as casas dos patriotas; o povo apinhava- se nas ruas, que a luz dos fachos
comeava a esclarecer.

Pouco depois, no meio de um grande claro avermelhado, via- se o Lucas Fernandes
esticado sobre os loros proclamando  multido que o cercava, suspensa no de seus
lbios, mas da barba hirsuta que lhe cobria o rosto como espessa floresta.

-- tomamos Porto Alegre de assalto, camaradas! O presidente fugiu, dizem que para
Rio Grande, outros que para a corte duma feita! Bento Gonalves j ps outro em seu
lugar; com este pode- se contar;  homem seguro. Agora s falta o xumbregas do tal
marechal de borra. Mas o coronel no tarda a para ensin- lo.

-- Viva Bento Gonalves!

Este grito prorrompeu da turba e foi saudado com uma aclamao frentica de
entusiasmo.

-- Aquilo  que  homem, prosseguiu o furriel. ramos cento e cinqenta quando
marchamos para a capital; mas bastou ele, o Lucas e o Manuel Canho, ns trs, para
levarmos tudo raso!

A esse tempo notava- se um novo movimento na multido. Um sujeito que passava
deixou cair algumas palavras entre as quais se ouvira o nome de Neto. Depreendia- se
que este acabava de receber notcias do auditrio do furriel para o ajuntamento que se
formava em frente  casa do chefe republicano.

A multido foi- se escoando; os fachos desapareceram; e o furriel, completamente
isolado, teve de ganhar a casa de Fortunata, s e s escuras. Durante o curto do
trajeto, pde ele meditar sobre a inconstncia da popularidade e a ingratido das
turbas.

Achou na porta as mulheres que o esperavam com ansiedade; mas ele entrou
carrancudo e sinistro como uma tempestade. Abraou as trs com uma voz de trovo.

-- Ento o que houve, Sr. Lucas?

-- Pois  preciso que diga? Pensavam que eu no havia de voltar c sem a rusga?



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                                                                        Pg. 27 de 107


-- Mas conte  gente!

-- No tem que contar! replicou o furriel com um tom desabrido.

Ningum mais tugiu. As duas cunhadas trocaram um olhar, e cuidaram de apressar a
ceia.

Catita conservou- se indiferente a toda essa cena: havia em seu belo rosto uma nuvem
de tristeza. Quando seus olhos puderam de longe distinguir a figura do pai, no meio da
multido, procuraram ansiosamente ao lado o vulto de Manuel; no o encontrando
          -
vendaram se.

-- A ceia est pronta, Sr. Lucas, disse Vidoca.

O furriel ergueu- se:

-- Manuel ainda no chegou?

-- Aqui, no! responderam as duas comadres.

-- Onde se meteria ele?

Os brilhantes olhos de Catita, fitos no semblante de Lucas, pareciam arrancar- lhe as
palavras dos lbios. Ela estremecera ouvindo a primeira frase; mas no sabia que
pensar. Tinha Manuel chegado  vila com seu pai, ou este o havia perdido de vista
desde Porto Alegre?

Nisto bateram  porta; e o gacho apareceu.

-- Tenham boa- noite, disse ele sem olhar para alguma das trs mulheres.

         -
Sentaram se todos  mesa e cearam.  medida que o furriel calcava o estmago ia- lhe
voltando o bom- humor, o entusiasmo revolucionrio e a facndia habitual. Ento, sem
que lhe pedissem, contou s mulheres as suas proezas na tomada de Porto Alegre;
no esquecendo as faanhas do Canho, que em sua opinio se mostrara digno do pai.

Na situao em que tinham ficado os negcios polticos no dia 7 de setembro, era
realmente para surpreender o desenlace, cuja notcia acabava de chegar a Piratinim.

Mas, depois daquele dia, alguns amigos de Bento Gonalves o tinham convencido de
que a revoluo era inevitvel. Nada a podia mais conjurar, no ponto a que haviam
chegado as coisas. Se o coronel recusasse tomar a direo do movimento, ele se
transviaria com toda a certeza e produziria as conseqncias que os espritos
moderados desejavam evitar. O meio mais seguro de prevenir a separao da
provncia era sem dvida a revoluo; ela tirava o pretexto aos republicanos.

Persuadido por estas razes, Bento Gonalves partira para Camac, de onde a 20 de
setembro marchara sobre a capital  frente de 150 gachos. Derrotada na ponte da



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Azenha uma pequena fora de 40 praas da guarda nacional, nenhum obstculo mais
encontrou. O presidente, baldo de recursos para opor  rebelio, embarcou- se a bordo
de uma escuna de guerra e retirou- se para a cidade do Rio Grande, tentando organizar
a a resistncia.

Senhor da capital, onde assumira a presidncia o cidado Marciano Jos Ribeiro, Bento
Gonalves, investindo- se do comando das armas, despachou imediatamente Manuel
Canho com uma carta para Neto, em Piratinim, comunicando- lhe os ltimos
acontecimentos e avisando-o da necessidade de bater quanto antes o t enente-coronel
Silva Tavares, comandante de uma fora estacionada no Erval.

O Lucas, apenas soube que Manuel partia, resolveu acompanh- lo; convencido de que
em Porto Alegre no havia mais inimigo a combater, o furriel queria aproximar- se do
lugar onde acreditava que ia travar- se a luta.

Chegando  vila naquela noite, enquanto o miliciano proclamava s turbas, Manuel
procurou Neto para entregar- lhe a carta; e ordenando- lhe este que fosse descansar e
voltasse no dia seguinte, dirigiu-se ento para a casa de Fortunata, onde acabava de
entrar.

Enquanto o furriel se desfazia em bravatas, sentia o gacho o brilho dos olhos de
Catita fitos em seu semblante; e s vezes passava as mos arrebatadamente pela
fronte como para espancar uma obsesso do esprito.

De novo bateram  porta. Desta vez era o Flix que vinha a pretexto de ver o mestre.
Ao entrar, o rapaz sorriu com amargura, relanceando um olhar que passou por Catita e
foi cravar- se em Manuel.

-- Ests contente, hein, rapaz! disse-lhe o Lucas; e recomeou pela dcima vez a
histria de sua ilada.

Flix porm no o escutava. Toda sua ateno estava empregada na rapariga e no
gacho. A princpio, assustada com a presena do rapaz, Catita disfarara as olhadelas
apaixonadas que pouco antes deitava sobre Manuel; porm logo depois irritada
daquela coao, arrostou as iras do ciumento, voltando-se completamente para o
gacho e ficando como absorta no seu rosto.

Flix tiritava de raiva; e por longe perpassou- lhe a idia de puxar a faca e crav- la
uma e muitas vezes no corao da rapariga. Ainda assim no se vingava, porque lhe
parecia que a ponta de ao no cortaria como o gume daquele olhar com que ela lhe
atravessava o corao.

O furriel, exausto das novidades e repleto de piro, se debruava sobre a mesa e
comeava a afinar o ronco.

-- V se deitar duma vez, Sr. Lucas, disse a Vidoca.

-- So mesmo horas de se recolher a gente.




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                                       -
Com esta despedida formal, ergueram se, o Flix para sair, e o Canho para ganhar
pelo quintal um puxado, feito  direita da casa, e onde o haviam arranchado.

-- Tenho um particular com o senhor! disse Flix ao gacho com voz soturna e
apontando para o corredor de sada.

Canho fez um gesto afirmativo:

-- Boa- noite. Podem encostar a porta que eu fecharei; no vou longe.

Saram os dois. At dobrarem o canto no trocaram palavra. Manuel esperava um
tanto surpreso, porque no lhe ocorria qualquer motivo para explicar aquela entrevista
com ares de mistrio.

Finalmente parou Flix e voltando- se para o companheiro, disse- lhe sacando fora o
poncho:

-- Esta noite um de ns deve matar o outro!

-- Por qu? perguntou Manuel com sossego.

-- Pois pergunta?

-- Decerto, respondeu o Canho sem mudar de tom. O motivo por que voc me quer
matar, pouco me importa saber; eu nunca perguntei  jararaca por que morde a
gente. Mas para que eu o mate,  preciso ter uma razo; no mato gente  toa.

-- Voc bem sabe a razo, tornou Flix rangendo- lhe os dentes. Eu gosto de Catita!

-- E que tenho eu com isso?

-- Voc tambm gosta dela.

Respondeu- lhe um riso de escrnio.

-- Logo vi que no estava no seu juzo. Aposto que veio da venda? redargiu o Canho.

-- No tenho que lhe dar satisfaes. Estou aqui para brigar e no para sofrer
desaforos.

-- Nem eu para ouvir mentiras.

-- Nega que ela gosta de voc?

-- Vou dormir; adeus!

-- No disfarce, foi ela mesma que me contou esta noite, h bocadinho.




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-- Pois perde seu tempo!

-- Mas enquanto voc viver, ela no far caso de mim.

-- E por isso me quer matar? Pois olhe: no estou disposto a morrer por causa de
mulheres. Procure outro motivo, que por este decerto no brigamos.

Ecoou perto um som abafado, semelhante a um soluo. Os dois voltaram- se para
conhecer a causa, e viram apenas um vulto que dobrava a esquina fronteira;
adiantando- se alguns passos, levados pela curiosidade, chegaram  rtula de uma
casa cujo interior aparecia iluminado por entre a fresta da janela cerrada.

Exalava de dentro um ambiente espesso, carregado com a fumaa de graxa e de
tabaco, bem como um surdo zumbir de muitas vozes, misturado com o tinir de
moedas, com o sussurro da guitarra e o estalo das cartas batidas sobre a banca.
Facilmente se percebia que estava na taberna a costumada roda de jogo.

-- Quer apostar a briga? perguntou Flix de repente.

-- Est feito. Assim  melhor.

Flix empurrou a porta, e os dois penetraram no corredor.

O vulto desaparecera.




VIII
A DAMA

Ouvindo, ou antes suspeitando o convite que Flix dirigira ao Canho no momento de
sair, Catita foi  janela.

Para qu? Nem ela o sabia; talvez para ver a direo que os rapazes tomavam, ou
para escutar as primeiras palavras que entre si trocariam. Com o rosto colado nas
frestas da rtula esperou que os dois sassem.

O silncio profundo que ambos guardavam assustou a rapariga. Presa de uma
ansiedade cruel correu  porta, ganhou a rua e protegida pela escurido pde,
esgueirando- se ao longo das paredes, acompanhar Manuel e Flix, sem que eles a
percebessem.

Assim, a poucos passos deles, oculta no vo que havia entre duas casas, pde ouvir
toda a conversa. Quando, porm, Manuel recusou brigar com Flix por sua causa, a
alma da rapariga, confrangida pelas palavras de desprezo, estalou em um soluo.
Receosa de trair- se resvalou para dobrar a prxima esquina e de todo afastar- se; foi
nessa ocasio que os dois viram seu vulto e quiseram segui- lo. Mas ela se tinha
encoberto no oito da casa.




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Depois que Manuel e o companheiro entraram na taberna, Catita arrastada pela
ardente curiosidade foi, transida e perplexa, encostar o rosto  rtula. A noite
ameaava chuva; de vez em quando vinha uma rajada que traspassava; e contudo
sentia a moa brasar- lhe a fronte. Repeliu sobre as espduas a mantilha que trouxera,
apertando a mo contra o peito para sopitar as rijas palpitaes do corao, que
faziam tremer a gelosia.

Pela fresta que deixavam as abas da janela cerrada, Catita viu atravs do xadrez da
rtula um aposento esclarecido por trs ou quatro candeias de lato. No centro havia
uma pequena mesa oblonga sobre a qual estavam apinhadas umas quinze pessoas,
gachos e pees, atentas ao jogo. No fundo, a Miss tocava na guitarra um lundu, ao
som do qual sapateavam alguns rapazes.

Manuel tomou lugar a um canto da mesa, defronte de Flix. Enquanto os outros
 continuavam o jogo da primeira, armaram eles um pacau para decidir a aposta. Da
primeira cartada o Canho bateu nove e ganhou a partida.

-- Bem lhe disse eu que no havamos de brigar.

-- Veremos! disse o rapaz a voz surda.

Manuel encolheu os ombros.

-- No h mais quem queira?

-- Topo eu! exclamou o Chico Baeta, atirando um pataco sobre a mesa.

Correram as cartas, e Manuel ganhou no s esta como as partidas seguintes. As
moedas de prata passaram da bolsa do peo para as mos de seu feliz parceiro.

-- Quer ir tudo contra o Pombo? Olhe que  um pingo de mo cheia.

-- V! respondeu Manuel cortando o baralho.

A sorte ainda o favoreceu. Chico levantou-se desesperado.

-- Que veia! exclamaram os outros.

-- Ningum resiste.

-- No d mais desforra? perguntou Chico desesperado.

-- Enquanto quiser.

-- Pois eu paro a Miss.

-- A Miss? replicou Manuel com um sorriso interrogador.




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-- No conhece? Pois veja que bonita rapariga. Vem c, Miss!

-- Que  isto? perguntou a rapariga aproximando- se da mesa.

-- O Chico parou voc no jogo, disseram algumas vozes.

-- Hein?

--  para me desforrar, Miss! Mas se no queres!

-- Desde que voc empenhou sua palavra!... respondeu a rapariga com a voz
repassada de mgoa.

Uma lgrima lhe desfiou lentamente pela face:

-- No te desconsoles, meu bem. Olha, se eu te perder, amanh arremato para mim
as primeiras balas dos caramurus, a troco das relhadas e laaos que hei de arrumar-
lhes. E se isto tem de suceder, no  melhor que fiques amparada?

-- Deixa-te dessas idias, Chico. Havemos de ganhar: eu tenho boa mo; quero cortar
o baralho.

Um riso jovial espancara de repente a melancolia do lindo rosto da rapariga e
espargira nele o brilho da esperana.

-- Ento valeu? perguntou o Chico a Manuel.

-- Eu topo tudo! respondeu este.

Desde o princpio da cena que cessara o jogo da primeira; todos os parceiros, agora
atentos ao pacau, aguardavam a deciso da partida de empenho.

A Miss talhou as cartas. Cada um dos dois parceiros tirou trs alternadamente do
baralho colocado no centro. Cabia a mo ao Chico. Este no meio a ansiedade geral,
comeou a filar o ponto na palma. A primeira carta voltada sobre a mesa era um
quatro, as duas restantes emborcadas uma sobre a outra, escorregavam lentamente
ao atrito dos dedos do jogador.

-- Figura! disseram em torno, vendo aparecer a pluma do valete de espadas.

O Chico no falava; todo ele estava nos olhos. Ajeitando as duas cartas e voltando- as
em sentido contrrio, comeou a filar a terceira; era esta a que devia determinar o
ponto, e portanto as probabilidades do ganho.

-- Queremos isto bem chuleado! disse um peo.

-- V logo, Chico! atalhou a Miss impaciente.




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-- Qual! Pois a  que est a graa!

Manuel, deitando no meio da mesa, sob uma pilha de moedas, suas trs cartas
cobertas, se derreara contra o banco e olhava a sorrir o rosto do parceiro agitado pelas
vrias comoes do jogo.

-- Quadrejou!

Esta exclamao partiu dos lbios de alguns que distinguiram primeiro no alto da carta
as quinas de dois losangos de ouro; quando estes levantavam a cabea para resfolgar
daquela ateno imvel, os outros por sua vez gritaram, vendo as duas marcas no lado
da carta:

-- Ainda quadreja!

A emoo e curiosidade tocavam agora o auge; com um cinco, o Chico bateria pacau.
Todos os olhos estavam presos no branco da carta, que subia lentamente espremida
pelos dedos convulsos do jogador. Ningum respirava; quanto  Miss e o amante,
pareciam assombrados.

-- Envido! acudiu Manuel rindo.

O Chico abaixou as cartas, e esperou um momento. No havendo quem aceitasse o
envite, continuou a filar o ponto com a mesma lentido. De vez em quando parava,
tolhido pela emoo; at que afinal levantou- se dum mpeto, como impelido por sbita
exploso; entanto o peito arquejante respirava estrepitosamente soltando, ou antes,
aspirando uma palavra, que soltara- se de todos os lbios.

-- Pintou!

Com efeito a estavam espalhadas na mesa as trs cartas, o valete, o quatro e o cinco
de ouros que faziam nove. O Chico tinha batido pacau, e tiritava de prazer. Abraado
com a Miss comearam ambos a sapatear um passo de tatu, chorando como duas
crianas, tanta era a alegria. Os outros companheiros contemplavam enternecidos
aquela cena.

-- Pois eu ainda envido! disse Manuel com a maio r calma.

Houve geral surpresa. J todos supunham a partida ganha, quando se levanta aquela
voz para lembrar que ainda faltava alguma coisa; pois no se conhecia o ponto do
contrrio.

-- Ah! quer empatar? disse Chico com um riso amarelo.

-- Empatar?... Quero ganhar!

-- Mas olhe que foi pacau batido!




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-- H outro mais valente do que esse.

-- O de s.

-- E o de coringa.

-- Ento envida mesmo?

-- J disse.

-- Pois topo.

Fizeram-se vrias paradas, casando moeda com moeda; e todos ansiosos esperaram
pelo desfecho da partida, cujo interesse cada vez subia de ponto.

-- Olhem; o s a est, disse Manuel voltando com a ponta da unha a primeira das trs
cartas, e o coringa tambm.

O Chico e os parceiros do envite empalideceram, vendo quase realizado o dito do
Canho.

-- E a outra? disse um, apontando para a ltima carta.

-- Esta, no tem que ver,  figura, e no passa de uma dama para fazer cortesia 
moa.

Acabando de proferir estas palavras, que ele endereou com um sorriso  Miss, o
gacho voltou rapidamente a carta. Foi profundo o assombro; era com efeito uma
dama; o Chico tinha perdido. O dinheiro, o cavalo e a amante pertenciam ao Canho.

Quando passou a confuso que seguira ao primeiro espanto, viu- se o Chico apertando
pela ltima vez a Miss em seus braos.

-- No chores, meu bem. Faz de conta que eu morri! Amanh vou te esperar l no
outro mundo!

Manuel segurou- o pelo brao no momento de passar a porta.

-- Faz- me um favor?

-- Qual?

-- Aceite o Pombo, como lembrana da primeira vez que nos vimos, h cerca de trs
anos. No se dir que Manuel Canho separou um gacho de seu melhor amigo. O
mais, o dinheiro e a mulher, acha- se a cada canto; porm o cavalo, que nos entende,
e se liga ao nosso destino no trabalho e na guerra, na vida e na morte, este, uma vez
perdido, custa a achar outro, quando se acha. Senhores, boa- noite!




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                        Pg. 35 de 107


Dirigindo esta saudao s pessoas presentes, o Canho ganhou a rua; tinha dado
alguns passos, quando um vulto deslizou na sombra e conchegou-se a ele. Que sorriso
de desprezo perpassou nos lbios do gacho!

--  mulher!... murmurou ele.

O temporal, que ameaava desde o princpio da noite, estava prestes a desabar; as
serras de nuvens negras, amontoadas no horizonte, comeavam a inflamar- se.  luz
crebra e lvida dos relmpagos, a vila adormecida assomava como o espectro de uma
runa no foco de um incndio.

Voltando- se nesse momento, viu a mulher de longe um vulto que os seguia; com a
                                                                        -
mo convulsa travou do brao do gacho e levou- o por diante at sumirem se no fim
da rua.

Tinham os dois chegado a uma das extremas da vila, em lugar ermo, onde a escarpa
ngreme do terreno formava um barranco profundo.

Manuel passou o brao pela cintura da mulher, e sentiu um corpo trmulo e agitado
que se apoiava nele. Mas nesse momento aquele seio arquejou, estalando num soluo.

Afastou-se o gacho rapidamente, arredando com um movimento brusco o talhe da
moa. Com esse movimento abriu- se a mantilha, que deslizando sobre os ombros,
deixou descoberta a cabea da desconhecida. Rasgava- se nesse momento um
relmpago, que iluminou o belo rosto de Catita.

Manuel ficou imvel em face da apario incompreensvel. Entretanto os relmpagos
         -
sucediam se e no meio dessa aurola deslumbrante ele via aquele mesmo olhar que
trs anos antes o fascinara e desde ento cintilava nas sombras da sua alma.

Dominando afinal aquele encanto, o gacho quis afastar- se, porm a moa tomou- lhe
o passo, cruzando as mos para suplicar- lhe que no a deixasse. Catita assistira a toda
a cena da taberna, e fora com o corao ralado de cimes que ela acompanhara
Manuel para impedir o seu encontro com a Miss.

-- Manuel! balbuciou a moa.

As palavras expiraram no lbio trmulo, mas desfolhando- se num sorriso que
enlevava.

O gacho lanou um olhar para o barranco; era um precipcio; mas no estava ali em
face, outro mais perigoso? No se abria diante dele no sorriso fascinador daquela
mulher, numa voragem para sua alma?

Travando do galho de uma rvore, Manuel arremessou- se, e desapareceu na espessura
da folhagem.

Catita caiu de joelhos.




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                                                                          Pg. 36 de 107


Ao grito que rompeu- lhe do seio, acudiu uma pessoa ; era a Miss, que a tinha seguido
de longe.




IX
BOMBEIRO

Os dias seguintes foram chuvosos. O manto espesso da cerrao, desdobrando-se
pelos cerros e coxilhas, tornava a campanha triste e soturna.

Cerca de doze lguas de Piratinim, para as bandas do Erv al, no rancho de uma
estncia, perdido no meio do campo, estavam reunidos seis pees que parolavam,
comendo um grande churrasco; fora, os cavalos arreados e presos  soga sem freios,
pastavam na grama.

-- Ento voc acha, Flix, que o Neto ainda est em Piratinim?

-- Pois que dvida!

-- E que gente ter?

--Uns duzentos, mas olhe que  boa gauchada.

-- Eu no lhe dou nem metade; e no passam de farroupilhas.

-- Talvez que amanh os vejamos de perto, disse Flix a rir. Tomara eu!

Neste ponto os animais deram aviso. Um dos pees saiu fora do rancho para correr os
olhos pelo campo; mas nada avistou que lhe despertasse a ateno. Entretanto os
cavalos continuavam a indicar, por seu ar espantadio, a aproximao de algum. Com
as orelhas espetadas, perscrutavam eles uma restinga de mato que ficava a alguma
distncia.

Suspeitoso o peo saltou na sela e botou-se para o lugar. Pareceu- lhe ver um vulto
perpassar entre a folhagem, e no se enganava: de feito um cavaleiro ali estava desde
algum tempo agachado entre as rvores,  espreita do que passava pelo campo.
Conhecendo pelos movimentos do peo, que fora, seno percebido, ao menos
suspeitado, tratou de evitar o encontro que parecia infalvel, pois a lngua de mato,
alm de estreita, era um raleiro, que de perto facilmente se devassava com a vista.

Um selvagem naquelas circunstncias subiria ao cimo das rvores, para ocultar-se no
mais basto da folhagem; mas nada separa um gacho de seu cavalo no momento do
perigo: seria o mesmo que deceparem as pernas do centauro, e o reduz irem a um
tronco mutilado.

Ganhando a orla oposto da mata, o desconhecido fez deitar- se numa biboca funda e
cheia de capim a tropilha que trouxera; e cobriu tudo isso com algumas braadas de
folhas secas. Ento estendeu- se pelo flanco do Morzelo de modo que era impossvel


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                                                                       Pg. 37 de 107


descobri-lo do lado oposto. Um dos ps apoiava na orelha esquerda do cavalo, o outro
o animal o segurava nos dentes como a cana do freio; finalmente, com a mo
escondida no cabelo da cauda, o desconhecido parecia colado ao corpo do quadrpede.

Quando o peo chegava  restinga viu  esguelha um cavalo estropiado, que se
afastava pelo campo manquejando. Bateu o mato e nada descobriu de suspeito;
retirou- se portanto convencido que o vulto no era outro seno o do Morzelo
arrebentado por alguma viagem.

Entretanto o animal, sempre manquejando, ganhou uma canhada, que no se podia
ver do rancho, e escondeu-se numa toua de sarandis. A o cavaleiro descansando da
posio incmoda, mas sempre alerta, permaneceu at cair a noite.

Manuel, pois era ele, separando-se bruscamente de Catita, na noite de sua chegada a
Piratinim, ouviu da biboca onde saltara, a conversa da moa com a Miss; e depois a
seguiu de longe at que viu ambas se recolherem  casa da Fortunata. A filha do Lucas
tremia com a idia de deixar s a amiga e por isso a obrigou a ficar em sua
companhia.

O Canho recolheu-se tambm; mas no pde dormir. Toda a noite via debuxar-se
                                                                  -
diante dele o quadro vivo daquela tempestade sinistra. Rasgavam se os relmpagos; e
do seio da luz celeste desprendiam- se duas centelhas que lhe traspassavam a alma e
embebiam nela uma lava satnica. Eram os olhos de Catita.

Pela manh dirigiu- se o gacho  casa de Neto, onde encontrou D. Juan Lavalleja,
Verdum, Onofre, Crescncio e outros republicanos orientais e rio-grandenses. O
caudilho o incumbiu da comisso perigosa de reconhecer a posio e importncia exata
da fora de Silva Tavares, comandante do Erval, bem como de espreitar seus
movimentos.

Partiu o Canho como bombeiro. Assim chamam na campanha as vedetas destacadas
 que precedem os corpos militares, explorando o campo, e dando aviso da
aproximao de qualquer partida suspeita. A etimologia dessa palavra, desconhecida
na lngua com semelhante significao, nenhum sbio por certo a aventar. No estilo
pitoresco do gacho, o bombeiro  o peo que surge de repente, para no dizer que
estoura como uma bomba, do meio da macega, e desaparece logo.

Nesse mesmo dia, soube Manuel na estrada do Erval que a fora de Silva Tavares
estava arranchada em uma estncia  margem do Orqueta, nas vizinhanas do Serrito.
Com efeito, seguindo as indicaes e guiado por sua perspiccia, verificou o gacho
pela madrugada a exatido da notcia. Restava porm saber quantos homens tinha o
chefe legalista, e ver por seus olhos que gente era, para levar a Neto uma informao
segura.

Aproximou- se da casa o mais que era possvel sem denunciar- se; mas conheceu que
perderia o tempo inutilmente, pois Silva Tavares, cuja finura e astcia tinham fama na
campanha, espalhara tambm seus bombeiros em todas as direes para prevenir um
assalto.




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                                                                         Pg. 38 de 107


Manuel conseguira iludir a vigilncia de alguns dos bombeiros, empregando para esse
fim todos os ardis imaginveis; mas corria o risco de ser descoberto a cada instante
sem ter colhido os indcios necessrios.

Logo que fechou a noite, ele voltou  restinga, e montado na Morena, aproximou- se
sutilmente do rancho, onde conversavam os pees.

Mas ento por que foi mesmo que voc deixou as farroupilhas, Flix?

Ora, foi o diabo de uma rapariga, que depois de se divertir comigo, h mais de dois
anos, comeou a requebrar-se com um sujeito que apareceu de repente.

 costume delas!

No admito; eu c defendo as muchachas.

Pois defenda, que h de achar uma para lhe dizer na bochecha, como me disse a mim
a Catita, que se eu ma tasse o namorado, primeiro matava a ela!

Que tal a pequena?

E como se chama o cujo?

Diz ele que  Manuel Canho; mas eu penso que  Manuel Co; e seno vocs ho de
ver como lhe deito a coleira vermelha; assim lhe ponha eu os luzios uma vez!

Ento voc escamou- se com medo.

Medo!

No digo do sujeito, mas da rapariga.

O sujeito, desafiei-o; no quis brigar por nada. Ento passei para os legalistas; quero
ver se ele agora tem desculpa.

Nada mais importante ouviu o gacho nem sobre sua pessoa, nem a respeito da fora
e plano de Silva Tavares. Resolveu portanto apresentar-se francamente na estncia,
como um viajante em trnsito.

Pela madrugada tirou os arreios do lugar onde os tinha escondido, e selou o Juca.
Eram sete horas da manh quando surgiu de repente no terreiro, sem que soubessem
como ali aparecera.

Sua chegada, sem aviso prvio dos bombeiros, excitou logo as suspeitas de um
homem baixo e gordo que se via pela janela de um quarto a embalar- se na rede.
Erguendo- se com uma vivacidade e presteza admirveis para sua corpulncia, saltou
na varanda, mas com o disfarce de chamar um peo. O rico pala indicava ser homem
de posio. Manuel reconheceu o comandante, porm no pestanejou:



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Que temos? disse o tenente-coronel, como se casualmente e s ento visse o recm-
c hegado.

Nada; quero descansar, respondeu o gacho com a maior serenidade.

Donde vem o amigo?

Da capital.

Ah! Vem de Porto Alegre! Ento viu a rusga. Conte-nos l como foi isto.

No tem que contar. Chegou o Bento com uns vinte farroupilhas de poncho amarelo ;
fez uma careta, e tudo comeou a tremer.

E o amigo?

Eu, vou me chegando para casa.

Aonde?

Em Ponche- Verde.

Ah!... Mas voc  um rapaz sacudido, e ns carecemos de gente.

L isso no! Tambm os outros precisam, e eu vim- me andando.

                         as
Manuel tinha-se apeado; m conservava-se perto do Juca, pronto ao primeiro sinal.

Diga- me, passou por Piratinim?

Ontem por estas horas.

Que gente tem o Neto?

H de andar por cinqenta.

Est bom; v descansar. Ol,. Camaradas! acomodem aqui o amigo, gritou o oficial
para um grupo de soldados e paisanos que se aproximava.

Ao ouvido perspicaz de Manuel aquele acomodem soou com timbre especial que o ps
alerta; e tinha razo, porque a gente espalhando- se pelo terreiro deitava- lhe cerco
para evitar que escapasse. Nisto uma voz exclamou:

Agarrem que  o camarada de Bento Gonalves.

Mas j o Canho estava na sela, e o impetuoso alazo arrancando, de um salto salvou o
cerco, e disparou pelo campo fora. Dez ou doze balas acompanharam de perto o




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gacho, que as ouviu sibilar bem perto da cabe a. Ento o intrpido rapaz voltou- se
para cortejar de longe, agitando o chapu no ar:

J sei o que desejava, senhores, at mais ver.

                                                                        -
Os bombeiros do rancho, ouvindo os tiros, saltaram na sela e puseram se no encalo
do fugitivo, que ao passar fronteiro  restinga soltou um grito vibrante:

Hel!...

Imediatamente a tropilha rompeu do mato e seguiu o cavaleiro que afastava- se com
espantosa rapidez. O alazo no corria, voava, e com pouco desapareceu por detrs de
uma coxilha.

Contrariado por ver escapar- lhe o inimigo, um dos pees, o que montava melhor
animal, arremessou as bolas contra o resto da tropilha que ficara atrs no por serem
maus corredores, mas por no poderem acompanhar a velocidade inaudita do alazo e
da baia. Um dos animais caiu com os ps tolhidos pelas correias; mas, fazendo um
esforo, conseguiu erguer- se. Passava nesse momento de corrida o Flix, que o
lanceou nos ilhais, arremessando- o outra vez no cho.

Entretanto o fugitivo, depois de algumas horas vendo- se fora do inimigo, moderou a
desfilada em que ia para dar flego aos animais.

Ento, Morena, a coisa esteve quente? disse o cavaleiro sorrindo e passando a mo
pelas clinas da baia, no momento em que ela emparelhava com o alazo. E o nosso
Juca brilhou, hein? Foi a primeira vez que sentiu o cheiro da plvora. Ns c j
conhecamos o zunir das balas:  como um besouro!

Nisto Manuel vendo chegar o resto da tropilha e dando por falta do Morzelo, sentiu um
aperto de corao. Sua vista ansiosa interrogou o Ruo, que soltou um rincho
melanclico.




X
LTIMO DEVER

No era possvel que Manuel abandonasse o Morzelo, seu amigo de infncia, o
confidente de suas mgoas, o companheiro fiel e dedicado de Joo Canho.

Nem de longe semelhante idia perpassou em seu esprito. Morena e Juca eram sem
dvida os mais lindos e briosos corcis, que jamais pisaram com a rija pata a verde
grama dos pampas. Manuel os amava com entusiasmo e dedicao; mas ao velho
amigo, votava ele amizade profunda, repassada de certo respeito, ou quase
venerao.

O cansao produzido pelo longo servio; a rigidez dos msculos, ressequidos pela
muita idade; o amortecimento do fogo e vigor de outrora, se diminuam o valor fsico


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do ginete, aumentavam a afeio de Canho. Ele tinha por estas debilidades do ancio
uma piedade filial. Montado no Juca, ardente mancebo, ou na Morena, travessa
rapariga, o gacho no escolhia caminho, nem rodeava uma cerca ou largo valado,
que preferia salvar de um pulo. No Morzelo porm evitava todo o esforo que podia
alquebrar as foras do velho; e poupava com solicitude os sobejos do antigo vigor,
bem como os brios do veterano corcel, facilitando- lhes as gentilezas, para no
humilh-lo diante da baia e do alazo.

Esteve Manuel um instante perplexo, no porque nutrisse a menor dvida sobre o que
exigiam dele, em relao ao Morzelo, sua conscincia e seu corao. Pensava como
faria chegar a Neto o resultado da misso de que se incumbira.

A ponto justamente de seu desejo apareceram alm trs cavaleiros nos quais o gacho
reconheceu  primeira vista o Chico Baeta, e mais dois parceiros do famoso pacau. Ao
sinal de que lhes desejava falar, pararam eles  espera do gacho.

O Chico Baeta cortejou Canho friamente, como quem guardava dele profundo
ressentimento. No escapou ao gacho esta circunstncia apesar da sua triste
preocupao; mas tinha coisa mais sria a tratar do que as carrancas do amante da
Miss.

Voc vai para a vila? perguntou Manuel chamando-o de parte.

Conforme! respondeu o peo de mau modo.

 preciso que v, e sem perda de tempo, tornou o Canho com autoridade. Diga a
Neto... oua! Diga que Silva Tavares est nas vizinhanas do Serrito, na estncia da
encruzilhada do Orqueta com o Piratinim. Ter cem homens, metade soldados, o resto
paisanada; mas a cada hora chega gente. Para atacar, o melhor  pelo passo da Maria
Gomes; ganhar a estrada do Erval, e voltando cair sobre os sujeitos pelo fundo da
estncia. Mas o tenente -coronel  vivo como azougue, e est alerta. Adeus!

Curioso e interessado nos pormenores que o gacho lhe comunicava, esquecera Chico
por momentos sua m -vontade, que tornou, passado o incidente, com a despedida de
Manuel.

E por que no vai o senhor mesmo ganhar essas alvssaras?

Tenho que fazer por c.

Ora! No h na vila quem o merea?... disse o Baeta com um riso de mofa, em que se
percebia travo de fundo pesar.

Canho interrogou com um olhar severo a fisionomia do peo.

Voc tem alguma coisa comigo, Chico?  por causa do pacau? Bem viu que foi uma
brincadeira: a rapariga l a deixei naquela mesma noite.




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Brincadeira, no! Dvida de jogo  dvida de honra. Eu no sou ladro para tomar
aquilo que perdi. O senhor ganhou a moa; ela  sua, lhe pertence. Senti c dentro:
mas no tinha que ficar zangado com o amigo, porque a sorte o favoreceu. Agora o
que nunca pensei foi que se fizesse pouco caso da rapariga e a deixassem andar a
rolando pelas ruas como um trapo que o vento arrasta. A Miss no  nenhum peixe
podre, Sr. Manuel Canho! H a alguma que lhe chegue aos ps, mesmo dessas
mulheres de truz? Ento quando ela se enfeita, mete a todas num chinelo! E para
bailar o tatu? Que requebros, que denguices de minha alma! Ai, nem me falem!

O Chico Baeta enternecido mergulhou a cabea pelo ombro para disfarar o choro que
lhe marejava do corao.

Uma rapariga como esta  para se tratar assim de resto, que nem rebotalho?... Quanta
gente grada no se daria por feliz de possuir um peixo daqueles? Sempre to
desejada e to querida, quem nunca pensou que havia de nadar  toa pelas ruas,
como matungo sem dono? Coitadinha, cortava o corao de a ver assim desprezada;
quando me encontrava com ela, fazia tudo para a consolar: "Ele no te conhece,
Miss; por isso... -- Qual? me respondia; no o mereo." E l vo quase oito dias!

Mas, Chico!... atalhou Manuel atnito do que ouvia.

No tem mas nem ms, Sr. Canho, retorquiu o peo formalizado. O senhor me
afrontou duas vezes: a primeira vez me fazendo passar por um homem namorado de
uma mulher - toa de que ningum faz caso, assim um lorpa que apanha o cisco da
rua. A segunda vez tratando de resto minha companheira que o senhor ganhou para
sua namorada e no para sua escrava.  o que lhe digo; o senhor me insultou, e me
h de dar satisfao.

Bem; eu lhe escutei calado; agora oua. A Miss  a mais bonita moa que pode
haver; naquela noite no sei com foi que nos perdemos, e voc viu que no outro dia
sa a toda pressa com a incumbncia do Neto. Mas que ver, Chico, o preo que tem
para mim sua namorada? Eu daria tudo para voltar agora mesmo  estncia, e saber
onde ficou um amigo que no trocaria por todas as raparigas do mundo. Quem sabe se
o mataram?...

Que amigo  esse? perguntou o Chico.

Morzelo, o cavalo de meu pai. Se o tiverem morto, hei de ving- lo! Mas Neto espera as
notcias; quando eu voltar, ser tarde sem dvida. Por um homem seguro que v a
Piratinim j, sem tomar flego, embora arrebente, eu dou o que tenho de mais valor,
dou a Miss. Quer ser esse homem, Chico?

Como?

Fao uma aposta. Se voc chegar  vila ainda com dia, bateu nove; tira a desforra do
pacau e ganha a rapariga. Mas voc no  capaz!...

Srio!




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Feche! exclamou Canho estendendo a mo.

Est fechada.

Mal soavam estas palavras, que j os dois cavalos arrancavam  rdea solta em
direo oposta. Quando os pees devorando as lombas da vrzea atingiam o dorso das
                                               -
fronteiras coxilhas e iam transmontar, voltaram se para t rocarem rpido aceno; dois
gritos fenderam os ares.

Saudades  Miss!

Abrao no Morzelo!

Mesmo a correr, Manuel saltando para a garupa do animal, afrouxou os arreios que na
rpida passagem pelo campo arremessou dentro da primeira moita, onde ficaram
ocultos. Qualquer outro dificilmente acertaria depois com o lugar perdido no meio da
vasta plancie; mas para o gacho cada acidente da campanha era um trao, uma
feio de sua fisionomia, e mesmo de relance gravava- se profundamente em sua
memria.

Livre dos arreios, o intrpido peo lembrando- se que Juca j correra seis horas,
chamou a Morena, e de um salto se transportou para o outro animal, sem afrouxar a
carreira em que ia.

De espao em espao deixava o Canho um dos animais da tropilha escondido nalguma
sanga ou restinga. Agora s o acompanhava o alazo; mas no perto como de
costume, e sim muito de longe, quase a perder de vista. Quando o gacho precisasse
dele, bastava um sinal da baia.

J durava algumas horas aquela corrida, quando surdiram longe alguns cavaleiros.
Manuel tinha o maior empenho em no ser visto; sobretudo por aqueles homens que
ele suspeitava serem os pees do rancho, ou pelo menos gente de Silva Tavares; era
preciso deix-los passar sem o pressentirem, para prosseguir em busca de Morzelo.

Ao avistar os cavaleiros no teve a menor surpresa nem hesitao. Desde muito que
ele estava preparado para os encontros; prevenira qualquer situao em que se
poderia achar: para cada uma inventara recurso, quando a posio no lhe oferecesse.

Assim, antes que os cavaleiros o descobrissem, pois de precauo ele corria deitado
sobre o animal, j a baia estava mergulhada em um brejo coberto de tanchagens e
aguaps, cujas folhas gigantes ocultavam a cabea da gua e o corpo do homem.

Os pees no tardaram a passar.

O Flix est queimado! dizia a rir um dos cavaleiros.

No abre a boca!

Pois se o co raspou- se!


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Manuel no ouviu mais do que estas palavras; porm no lhe escapou que o ferro da
lana do rapaz estava ensangentado de fresco.

Decorrida meia hora depois do primeiro encontro, Manuel descobriu no pela frente,
mas  direita um troo de gente a cavalo. Era, sem dvida, alguma partida pela qual o
Silva Tavares mandara bater a campanha em roda da estncia para evitar surpresas.

Desta vez a posio era crtica. Manuel estava em campo raso, onde no ser percebia
toua de macega, ou moita de camboim, capaz de esconder um veado, quanto mais
um homem e seu cavalo. O gacho porm no trepidou; j ento montava ele o Juca.
No se imagina a rapidez incrvel com que deixou- se escorregar ao longo de uma
ondulao do terreno, sobre o qual o alazo deitou-se, cobrindo- o inteiramente com
seu corpo. Entre o cho e o flanco do animal apoiado no cmoro de relva, havia um
vo onde o gacho se estendera comprimido pelo peso do quadrpede; os interstcios
que podiam denunciar o trajo, eram tapados pelos tufos de capim.

O troo de gente armada passou a duas braas do Juca, e no vendo mais que um
animal deitado, como se encontra a cada instante na sombra, seguiram seu rumo, e
sem a menor suspeita de que deixavam ali o inimigo.

Afinal avistou Canho alm o rancho dos pees, e imediatamente distinguiu a meio
caminho um vulto negro, que ele reconheceu. Era o corpo do Morzelo. Estaria vivo ou
morto? O rincho triste e plangente da Morena, que assomara ao longe a sota- vento,
era uma elegia de dor e saudade.

Quando Manuel chegou junto do corpo, tinha o corao tmido e os olhos cheios de
lgrimas. Ainda vivia o velho corcel; mas estava moribundo. Lanar- se a ele; sondar-
lhe a ferida; rasgar a camisa para estancar- lhe o sangue; foi o primeiro mpeto do
gacho. O cavalo fitou os olhos no dono, com uma expresso eloqente e expirou.

Ajoelhado junto ao cadver, e abraado com ele, Canho deu expanso  sua dor.

-- Morreste, meu amigo; chegou tua hora. A nossa, a de teu companheiro de infncia
e de teus camaradas, talvez no esteja longe; talvez que vamos ter contigo muito
breve! Mas eu sempre pensei que a ti, o bravo dos bravos, estava reservada a fortuna
de morrer combatendo, e no pela mo traioeira de um malvado!... Morreste por
dedicao; mas sers vingado, amigo! Eu juro sobre tua sepultura; e esses dois irmos
juram comigo.

O Juca e a Morena que gemiam sobre o corpo do companheiro, escavaram o cho com
a pata, e dardejaram ao longe um olhar que parecia uma espadana de fogo.

Canho fez um esforo; tinha ainda um dever a cumprir para com o amigo: era o de
dar-lhe sepultura, para que no fosse pasto dos abutres. Com o ferro da lana e as
mos abriu uma cova profunda na prxima capoeira; e arrastando o corpo de Morzelo
o inumou nesse jazigo que ele consagrou com uma cruz, como se fosse o tmulo de
um cristo. Para Manuel aquele era o smbolo do que h de santo na terra.




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                       Pg. 45 de 107


XI
DESNIMO

Fazia lusco- fusco.

Desenganados da caa que tinham dado ao bombeiro, voltavam os pees ao rancho,
quando ouviram um estrpito medonho; e um turbilho caiu sobre eles.

Era o Canho e sua tropilha  disparada; o homem soltara brados espantosos; os
cavalos rinchavam com estranha ferocidade. Manuel os tinha habituado a combater;
pareciam lees na peleja.

Os pees transidos, supondo- se atacados por fora muito superior, dispersaram pelo
campo fora. Um caiu ferido pela espada do gacho; ao outro alcanou o arremesso da
lana; alm o terceiro era colhido o lao enquanto o companheiro rolava com o animal
esmagado pelas bolas. Se algum tentou levantar- se, os cavalos o acabaram a coices.

Dos dois pees que restavam, um escapara - se; o outro, Manuel o seguia de perto e
arremessando- se como um tigre na garupa estringiu- lhe o corpo em um abrao. Era o
Flix.

-- Aqui estou! No te querias encontrar comigo?

Isto dizia o gacho ao ouvido de Flix, metendo as chilenas no ventre do animal, e
sem tirar os olhos do outro peo que adiante corria. Entretanto desprendendo o lao
amarrava os braos do prisioneiro de modo a tolher- lhe os movimentos.

-- Foste tu que lanceaste o Morzelo?

-- Fui!

-- E quem o boleou?... Responde, se no queres que os chimarres te devorem vivo!

A ameaa era terrvel.

-- Aquele que l vai, respondeu Flix.

-- Ah! Ento  preciso nos despedirmos; tenho pressa.

-- Mata duma vez!

-- Matar-te, a ti? No; hs de viver, para namorar Catita ou alguma outra. sempre que
ela olhar para ti, prometo que te lembrars do bravo que assassinaste como um
cobarde.

Ouviu- se ento o ranger do ferro na carne e um terrvel bramido. Saltando outra vez
no Juca, Manuel abandonou Flix e continuou a perseguir o ltimo dos pees; aquele
que primeiro insultara e abatera o brioso corcel, atirando- lhe as bolas.



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                                                                         Pg. 46 de 107


Durante a curta cena anterior o gacho no parara um instante: mas como ento
montava o cavalo de Flix, nenhum avano tivera sobre o fugitivo. Agora, porm, de
cada tranco do alazo, ganhava terreno. Contudo fora necessrio que no lhe faltasse
o espao para alcanar o peo j muito distante. Era esse justamente o receio de
Manuel observando a direo que levavam; a estncia no podia ficar a muitas
quadras; embora estivesse resolvido a seguir o matador do Morzelo at no seio do
acampamento inimigo, quando chegasse, j o acharia refugiado dentro de casa e
defendido pela fora legalista.

Nisto luziram ao longe os fogos da estncia; calculando a distncia e a dianteira do
peo, o gacho soltou um assovio.

-- Morena!

Entre os dois animais era difcil distinguir o melhor corredor. Em grande distncia o
alazo vencia a me; mas no primeiro mpeto a gua excedia ao prprio filho na
velocidade. Por isso a chamava o gacho.

Poucos instantes depois o vulto esbelto da Morena perfilou- se com o alazo e Manuel
passou rapidamente de um a outro animal.

-- Upa!... Upa!...

A baia fendeu os ares como a asa negra do tufo; quando o peo surgia no claro que
derramava fogo pelo terreiro, os soldados atnitos viram precipitar- se um vulto negro,
como uma guia em seu arremesso; e um corpo rolou aos seus ps.

Imediatamente correram s armas; soou a fuzilaria; e do turbilho de fumo
desenvolveu-se a sombra do gacho que fugia inclume entre uma chuva de balas. J
ele estava fora do alcance, quando recebeu nova descarga de um posto avanado, que
o viu sumir- se ao longe nas trevas,

Manuel ouvira quatro tiros, e s duas balas tinham sibilado a seus ouvidos; uma se
amortecera nas dobras de seu poncho batido pelo vento; mas a outra?

Morena devorava o espao; nunca Manuel habituado  velocidade da gua sentira
aquele mpeto que lhe recordava a corrida vertiginosa da baia pelos pampas  busca
              -
do filho recm nascido. Depois de algum tempo julgando- se livre de perigo, quis
moderar-lhe o impulso, mas ela desobedecendo- lhe pela primeira vez redobrou a
rapidez.

Esta insistncia fez- lhe supor que era perseguido; o faro e o instinto do animal
excediam sua perspiccia. Nisto reparou na ausncia do alazo; quanto aos outros
animais, era natural que ainda estivessem descansando das fadigas daquele dia to
penoso nos lugares onde os deixara. Mas Juca? Por que no aparecia? Tivera acaso a
mesma sorte do Morzelo?

Manuel chamou o alazo com o costumado sinal; um vento rijo impelia o somo na
direo da corrida; e o silvo que soltara repercutiu-lhe longe, mas pela frente.



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                                                                       Pg. 47 de 107


Debruando- se ento, pruriu o focinho da baia para que ela chamasse o filho com o
nitrido fremente que fendia os ares. A Morena ficou muda; e arremessando- se com um
novo mpeto perpassou nas trevas como a sombra fugitiva e silente do corvo
arrebatado pela procela.

Ao cabo de algumas horas dessa corrida delirante, a petrina da baia comeou a
resfolegar com uma espcie de estertor. Um pressentimento cruel cerrou o corao do
gacho, que de um salto arrojou- se no cho.

-- Est ferida!

Quando os ps do gacho tocavam a terra, Morena que sustivera-se at aquele
instante com supremo esforo, deixou- se cair exnime sobre a relva. A mo convulsa
do gacho, tateando- lhe o corpo, sentiu a tpida umidade do sangue derramado pela
anca do animal.

Faiscar lume, acender fogo com palha e gravetos, foi o primeiro movimento de Manuel.
Ao brilho vivo da chama, a baia fez um esforo para erguer a cabea, pondo no amigo
os olhos amortecidos. Bem a compreendeu ele; o animal receava que o fogo desse
aviso ao inimigo; mas naquele momento pouco importavam a Manuel os que o
perseguiam; o verdadeiro, o terrvel inimigo, era o golpe que ameaava essa
existncia querida.

Prontamente examinara Manuel o ferimento e reconhecera sua gravidade. A bala
penetrando de revs na anca se entranhara, mas no atravessou do lado oposto.
Teria- se alojado e amortecido nas vsceras? Nesse caso o ferimento era mortal.
Encontraria o osso da rodela e a se alojara? Se assim fosse, no havia leso
essencial; mas o esforo inaudito que fizera o animal e a grande perda de sangue, o
punham em risco eminente.

-- gua!... murmurou o gacho.

S ento reparou que se achava  borda de uma capoeira nas cercanias de Piratinim.
De um cordo da serra dos Tapes que passa junto  vila descem inmeros arroios;
Canho descobriu um  pequena distncia: rasgando a prpria camisa, lavou a ferida e
aplicou- lhe uma compressa para estancar o sangue.

De joelhos ao lado do corpo da Morena, com os olhos fitos na cabea do lindo animal,
o gacho engolfou- se numa cisma dolorosa e to profunda que no percebeu um
ligeiro rumor de folhas secas pisadas por um p sutil.

-- Assim devia ser!... balbuciaram seus lbios frouxos. Vivemos juntos, morreremos
juntos, no mesmo dia. Morzelo, nosso velho amigo, foi o primeiro: deixou- nos esta
manh. Ns ficamos para ving-lo; ele deve estar contente. Juca, a esta hora talvez j
esteja com o padrinho; j ter conhecido o pai e o mano. A bala sem dvida
traspassou- lhe o corao, porque no soltou um gemido, no chamou nem por ti, nem
por mim; foi mais feliz; no sofreu como tu, Morena!...

Um soluo abafou por momentos a voz do gacho.



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                                                                          Pg. 48 de 107


-- Foste tu quem te mataste, amiga, e para salvar- me! A bala em vez de atrasar a
carreira, te deu asas; sentiste que me perseguiam, e voaste para me pr fora do
alcance do inimigo. E nem um gemido; nem um sinal por onde conhecesse que estavas
ferida! Ah! se eu adivinhasse!... Para que fugirmos? Melhor era morrermos ambos
combatendo, e vingando o nosso Juca! Eu s, no terei foras nem coragem! Que vale
um homem meio morto; eu j morri no Morzelo, j morri no Juca; quando acabar de
morrer em ti, que fico sendo? Uma cabea sem corpo; uma mo sem brao! Ento,
melhor  dormirmos juntos no seio da terra.

Manuel correu os olhos em torno procurando um lugar onde abrir a cova que devia
receb- los a ambos. Uma faixa vermelha listrava o horizonte, anunciando a alvorada.

Neste momento o rumor tornando- se mais distinto excitou o reparo do gacho; mas
com suprema indiferena pelo perigo, nem sequer volveu ele os olhos para perscrutar
a causa. Que maior desgraa lhe podia sobrevir? Que mal ainda restava, de que
                      -
valesse a pena guardar se?




XII
A BALA

Raiava a manh em Piratinim.

A rtula do oito na casa de Fortunata abriu- se, e apareceu ali o gracioso rostinho de
Catita, ainda amarrotado do sono.

Os lbios rubros comearam um bocejo que se desfez em um sorriso, enquanto as
costas da mo esquerda encostada  fronte protegiam os olhos sonolentos contra a luz
do dia. Tudo  gentil na mulher formosa; at esse desalinho do acordar.

A fresca brisa, que agitava os cabelos cacheados da menina em volta de sua cabea,
breve espancou- lhe as nvoas do sono, e restituiu  tez a doce transparncia da folha
da rosa que se deslaa.

Ouvindo a voz da me, que a chamava, Catita se embuou na mantilha e marrando em
um leno alguma roupa, correu ao quintal onde a esperava Maria dos Prazeres. Ambas
desceram a encosta da colina, e seguiram em direo ao rio. O tempo estava quente
para aqueles climas, e convidava ao banho.

Caminhando adiante com o p ligeiro e o meneio airoso de seu andar, a rapariga devia
enlear- se nalguma cisma; pois no se voltava para faceirar com a me, nem se
abaixava para colher na relva estrelada de flores, as boninas de que tanto gostava. Em
seus lbios risonhos esvoaava um ligeiro descante, cuja letra mal se percebia:

Livre, ao relento,
Pobre, sem luxo,
N'asa do vento
Vive o gacho.



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Dias antes a rapariga achara casualmente no fundo de sua memria o eco dessa
toada; e desde ento que a repetia, buscando o fio que a tecera  breve histria de
sua vida. Onde e quando a ouvira?

De repente desenhou- se em sua fantasia a cena passada trs anos antes no alpendre
da taberna em Jaguaro. No rapaz sentado a distncia reconheceu o perfil de Manuel
Canho, e compreendeu a estranha impresso que o gacho produziu nela j moa,
quando o vira ultimamente.

Estas recordaes volveram o esprito da menina s preocupaes que o absorviam
durante a semana. Ela sabia que Manuel partira como bombeiro para reconhecer a
posio do inimigo; e pressentia quanto essa misso era perigosa. Voltaria dela o
gacho? E voltando continuaria a mostrar-lhe o mesmo desdm?

Foi interrompida nestas cismas pela voz de Maria dos Prazeres.

-- No vamos muito longe, no, menina; podem os caramurus aparecer por a de
repente.

-- Qual, mame! Eles so capazes?

-- O seguro morreu de velho.

-- Ento agora que Neto j tem um poder de gente.

-- Pois no disseram que ele saa com a tropa esta noite?

-- Ficou para hoje.

-- Que desgraas no vai haver com esta rusga, minha Virgem Santssima!

apesar da insistncia da me, Catita continuou a margear o rio at o stio que oferecia
melhor banheiro, pela completa solido e espessura da folhagem que o recatava,
assim como pela bacia espaosa formada na curva da corrente.

Enquanto Maria dos Prazeres com sua costuma pachorra descansava sentada na relva
 beira do rio, a rapariga caiu n'gua como um passarinho que mergulha e se
espaneja. Estava ela entregue ao inocente folguedo, nadando e fazendo passos de
dana, quando pela abbada de verdura que ensombrava o rio, se propagou o surdo
tropel de um cavalo.

Nada mais natura l naquela paragem; contudo a moa receando a aproximao de
algum, saiu apressadamente do banho. A me estava ainda de camisa, sentada no
cho, a esfriar o corpo; de vez em quando riscava a flor d'gua com a ponta do p,
que logo encolhia.

-- J acabaste?




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-- J, mame.

-- Est muito frio?

-- No senti!

-- Uih!

Durante este curto dilogo, Catita escondida entre a folhagem, vestia-se ligeira,
acompanhando o tropel que se aproximava.

-- Entre, mame!

-- J vou. Que pressas, gentes!

Nesse momento a ramagem farfalhou; um vulto passava. Catita cuidando reconhecer o
cavalo de Manuel Canho, obedeceu ao primeiro impulso e o seguiu. No se enganava;
uma rstia de sol iluminou o plo aveludado do Juca.

-- Que , Catita? perguntou Maria dos Prazeres assustada.

-- Creio que os caramurus a vm!

-- Ai! meu So Brs!... Eu bem dizia!

A mulher de Lucas, metendo os ps na pachorra, sem importar- se com a transparncia
e frescura de seu trajo, nem com a sorte da filha, empurrou-se para a vila, onde
chegou de uma batida, deitando os bofes pela boca. Tendo- lhe o mato arrancado
metade da fralda, imagine- se em que estado chegaria a rechonchuda matrona.
Felizmente era cedo e o quintal da casa de Fortunata se estendia at as abas do
povoado.

Se Catita procurasse um meio para ficar s e livre de seguir seu impulso, no podia
acertar melhor. No foi porm a malcia que inspirou a lembrana, embora a
aproveitasse. Reconhecendo o alazo, a rapariga acreditou que a chegada repentina do
gacho significava a aproximao do inimigo; quando acudiu a refle xo, ela quis
chamar a me e tranqiliz-la, observando que o perigo ainda estava longe, pois o
Canho no se apressava em entrar na vila.

Mas sorriu e continuou a seguir o cavalo, o qual embora levasse um grande avano,
deixava na ramagem os traos de sua passagem e o caminho aberto. Ao cabo de
alguns instantes ouviu a rapariga outro relincho, mas este era triste e soturno como
um lamento. O alazo estava parado em um raleiro de mato.

Perto via- se, prostrado em uma cama alta de capim, o corpo da Morena; o sangue que
lhe corria da ferida encharcava o cho. De instante a instante o generoso animal
perdia o alento; j no tinha fora de mover a cauda para afugentar as moscas e um
reflexo bao e vtreo comeava a cobrir- lhe a retina.




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Ouvindo o gemido do alazo, os olhos da gua cintilaram, procurando o filho, mas logo
amorteceram; a cabea que s se erguera com um esforo tombou pesadamente, e
sbito estertor percorreu- lhe o corpo.

Comovida profundamente com esta cena, Catita correu para o animal, e sentando- se
no cho ps- lhe no regao a cabea inerte que estreitou ao seio, cobrindo- a de
carinhos e de lgrimas. Entretanto Juca lambia a ferida e o corpo da baia, procurando
com a baba cheia de seiva e vitalidade, estancar o sangue e restituir- lhe o calor aos
membros entorpecidos.

De vez em quando a rapariga deitava o olhar em torno  procura de Canho; ela
adivinhara sua presena recente no cuidado com que estava feita a cama da Morena, e
no chapu suspenso a um ramo seco de rvore. Naturalmente o gacho se afastara em
busca de algum remdio.

No se enganava.

Manuel reconhecera que no havia meio de estancar o sangue enquanto a bala
estivesse alojada junto ao osso, impedindo a aderncia das carnes e ligao dos vasos
ofendidos. Tendo preparado a cama dentro do mato, e ajudado a baia a arrastar- se at
ali, mal rompeu o dia partira para a vila com inteno de munir- se de um objeto
qualquer que lhe servisse de tenta e de pina.

Nesse momento Juca descobrindo um gozo que sara do mato e farejava o sangue, o
arremessou longe com a pata.

O cozinho desapareceu.




XIII
OS CHIMARRES

Voltou Canho afinal com uma haste de ferro, arqueada na ponta  maneira de uma
torqus: foi tudo quanto pde obter de um ferreiro cuja especialidade era fazer pregos
e arcos de barril. Quando ent re uma fresta do mato, descobriu longe o grupo que
formavam Morena, Catita e Juca, foi terrvel a impresso.

-- Morta? disse ele precipitando-se.

-- No! balbuciou Catita, mas to timidamente que Manuel a compreendeu mais pelo
gesto do que pela fala.

Os olhos do gacho encontrando os da rapariga, no se desviaram, como outrora.
Quem eles viram no era mais a mulher bonita e sedutora, e sim um corao que
entendia e partilhava sua dor; uma alma que naquele momento solene entrava na
santa comunho de suas afei es.




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Ajoelhando em frente da moa, curvou- se quase sobre o seu regao para observar a
Morena; e com um gesto de angstia mostrou-se a lividez que se derramava pelo
cristalino dos olhos do animal. Catita pressentira esse gesto, e duas lgrimas
          -
correram lhe pela face.

-- Enquanto a bala estiver dentro, o sangue no estanca e...

Um soluo abafou a voz do gacho, que preparou- se para tentar a operao. S ento
abraou o alazo, a quem na vspera julgara morto. O Juca estendeu o focinho para o
horizonte, meneou a cabea, olhou a me, e gesticulou. O que pretendia ele exprimir
com isso? Manuel entendeu que o alazo perseguido correra toda a noite em sentido
contrrio, para fazer que o inimigo perdesse a pista da Morena.

Depois dos maiores esforos para extrair a bala, o Canho descorooado derrubara a
cabea aos peitos, ajoelhado ao lado do corpo da Morena, quando uma voz formidvel
reboou entre as rvores.

-- C est o cujo.

Era o Lucas Fernandes, que rompendo o mato, se apresentou impvido ante os olhos
da filha e do gacho. Lanando uma vista rpida  cena, prpria para surpreender
outro homem que no fosse o furriel, travou ele do brao do Canho.

-- H uma hora que andamos  sua procura, Manuel; aqui esto os amigos.

O Canho afastou- se para evitar que os estranhos penetrassem naquele stio.  beira do
mato encontrou Verdum, Ortis, Rolin e outros. Os orientais, sabendo da volta do
bombeiro, tinham improvisado um ataque ao acampamento do Silva Tavares; Neto, de
partida para Pelotas com o grossa da fora, lhes cedera uns trinta pees e com esse
punhado de gente pretendiam os caudilhos levar ao cabo a temerria empresa; sem o
Canho porm sentiam que nada poderiam fazer.

Lucas aplaudira com entusiasmo o plano, e se incumbira de procurar Manuel que fora
visto na vila ao romper da alvorada. Os caudilhos impacientes o tinham acompanhado
em sua pesquisa.

Manuel ouviu trs discursos, um de Ortis, outro de Verdum, e o ltimo do furriel; cada
um dos oradores exps com veemncia o plano de ataque e exaltou os resultados do
esplndido triunfo, que decidira da sorte da revoluo, abatendo de uma vez o poder
imperial.

-- Em 1832 eram trinta e trs; agora seremos trinta e sete, quatro de mais! exclamou
Verdum, batendo no ombro do Canho. Que diz, amigo?

-- Eu no posso! respondeu Manuel pausadamente.

Foi geral o espanto.

-- Que  isso, homem?



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-- Acha que somos poucos!

Manuel encolheu os ombros.

-- Os senhores so trinta e sete; ontem quando l estive, eu era um s.

-- Mas por que razo no quer voc vir conosco, Manuel?

O gacho calou- se; o que ele sentia, os outros no poderiam compreend- lo.

-- Algum dos senhores abandonaria seu irmo e seu amigo quando ele est a expirar?

-- Acima de tudo a ptria!

-- Minha ptria  a campanha onde corre meu cavalo.

-- Se fosse Joo Canho que me ouvisse neste mome nto, j ele estaria na sela.

A invocao do nome do pai abalou o corao do gacho, pois recordou- lhe a
abnegao do antigo soldado quando se tratava de cumprir um dever. Nesse momento
sentiu na mo o atrito de uns dedos sfregos e a impresso de objeto frio e pesado.
Era uma bala. Catita com o tato admirvel da mulher a extrara da ferida, e viera
mostr- la timidamente a Manuel. Ali estava ela com os olhos baixos, trmula, como se
tivesse cometida uma falta.

O gacho cerrou- lhe a ponta dos dedos com fora. A essa interrogao impetuosa
respondeu o olhar ardente da rapariga.

-- Sigam que eu j os alcano.

Pronunciando estas palavras rapidamente, o gacho arredou com um gesto os
companheiros, e correu ao lugar onde estava a Morena. O sangue estancara; e o
animal babujava, ainda sem fora para mastigar um molho de tenra grama.

A esperana iluminou o torvo semblante do gacho. Com um movimento convulso
apertou ele ao seio o corpo trmulo de Catita, e saltando no Juca desapareceu.

Teriam decorrido duas horas depois da partida de Manuel, quando o mesmo cozinho
que o alazo afugentara apareceu na orla do mato, e soltou um latido, a que
respondeu perto um surdo regougo.

Catita estremeceu, vendo que estava cercada por uma matilha de ces chimarres.
Esses animais, criados nas charqueadas, s vezes se multiplicam prodigiosamente, e
vagam em bandos pelos campos, como lobos carniceiros; naquela poca andavam eles
famintos, porque a revoluo fizera abandonar a carneao das reses.

Compreendeu a moa o perigo da Morena e o seu prprio se no desamparasse o
animal ferido  voracidade dos ces. Os molossos farejavam o sangue arregaando as



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belfas e escancarando as fauces erriadas de longos dentes acicalados. Longe ressoou
o latido furioso de outra matilha que se aproximava.

Nem um momento a idia de abandonar a Morena para salvar- se, passou pelo esprito
da corajosa moa. Ajoelhando- se ao lado da baia, cingiu- a com seus braos, e
encomendou a alma a Deus.

Nesse momento supremo, ante a morte horrvel que a ameaava, ela sentiu um
grande consolo, lembrando-se que morria por Manuel.




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XIV - VISO

Alcanando Verdum, Manuel embora disposto a partilhar a sorte do combate, declarou
ao coronel que o ataque naquelas circunstncias, com to pouca gente, era uma
imprudncia; porque o inimigo estava alerta e no se deixaria surpreender.

O oriental insistiu; o resultado foi uma carnificina que ele pagou com a vida. Era a
primeira derrota da revoluo, a que devia seguir- se em poucos dias a do capito
Porcincula no Arroio Grande.

                     -
Manuel e Juca bateram se como lees e vingaram a Morena de uma maneira terrvel.
Quando passavam no meio de um turbilho por entre os inimigos, dir-se- ia o gnio do
extermnio cavalgando um corcel de asas de fogo.

Vem do que de seus companheiros j no restavam no campo seno cadveres, o
gacho como um tigre saciado da carnificina, escapou- se. Perseguido de longe pelo
inimigo avistou ele adiante o furriel, cuja cavalgadura estropiada galopava sobre trs
ps.

Passar, suspender Lucas nos ares e encaix - lo no lombo do Ruo, foi coisa de relance.
O miliciano ainda supunha- se espetado na ponta da lana inimiga, que j corria 
desfilada, tangido pelo gacho.

Era alta noite, quando avistaram as torres de Piratinim. Manuel dirigiu-se ao raleiro
onde havia deixado Catita e Morena; a escurido no permitia distinguir os objetos;
mas ele reconheceu logo que o stio estava deserto e fora recentemente o teatro de
uma luta; havia ali um tpido odor de sangue. Com o corao estringido por um
terrvel pressentimento, faiscou lume do fuzil e acendeu um molho de capim seco.

-- Ces! murmurou Manuel transido.

                                                     -
Que horrvel espetculo! No meio do cho revolto viam se grandes charcos de sangue;
e ossos ainda mal despojados da carne, esparsos aqui e ali pela orla do mato. Em um
desses acervos de detritos animais, descobriu Canho um pano que ergueu com a ponta
da faca e aproximou do fogo.

-- Conhece? disse ele para Lucas pasmo ante esta cena.

A voz de Canho pronunciando aquela palavra tinha um acento medonho. Um calafrio
percorreu o corpo do alferes, cujo esprito parecia recuar espavorido ante a idia que
assomava. Seu olhar esbugalhado era uma nsia e uma interrogao.

--  da saia de sua filha!

-- Catita!

O nome da filha envolto em um gemido dilacerante, eis tudo quanto se exalou dessa
alma selada pela estupidez da dor.




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                       Pg. 56 de 107


-- Foi o senhor quem matou- as, a ambas, arrancando- me daqui. Agora havemos ns
de ficar tambm; os ces naturalmente voltam.

Um estranho riso, que repercutiu na treva como o crocito da coruja, acompanhou estas
palavras. O furrie l era sem dvida um homem destemido; mas aquele riso penetrou no
seu crebro como a lmina de um estoque; sbita alucinao mostrou-lhe o quadro
espantoso dos ces famintos esgarando-lhe em lanhos as carnes palpitantes.

Assombrado, Lucas fugiu.

Manuel, porm, o perseguiu escarniadamente, e conseguiu afinal agarr- lo.

Como ia voltar com ele ao stio donde sara, encontrou em caminho um troo de dez
cavaleiros.

-- Quem vai l?

-- Passe seu caminho.

-- Manuel!... Escute!

-- Quem ?

-- No conhece mais o Chico Baeta? E os outros?

-- L ficaram.

-- Todos?

-- Menos os dois que v. Antes l ficassem tambm.

-- At Verdum?

-- Foi dos primeiros.

-- A coisa vai mal. Agora mesmo chegou este camarada com uma notcia. O Marques
sabendo que Bento Gonalves j estava em Camac para reunir- se a Neto, mandou
uma partida...

-- Contra o coronel?

-- Sim, para prend- lo ou mat-lo, que  o mais certo.

Manuel no quis ouvir o resto; assobiou para chamar a tropilha; e saltando no lombo
do primeiro cavalo que se aproximou partiu com o Chico e os outros pees, para
baterem campo at Camac, e derrotarem qualquer emboscada, ou morrerem
defendendo Bento Gonalves.




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                                                                        Pg. 57 de 107


A notcia no era muito exata; o major Marques, o atual visconde de Porto Alegre,
comtemporizava diante das foras de Porcincula, esperando a juno com Silva
Tavares, para atacar o chefe rebelde e derrot- lo, como sucedeu em princpio de
outubro.

Quanto a Bento Gonalves, Manuel o encontrou dias depois na margem do Camac
alm do passo do Mendona. O coronel reunia alguma fora para marchar sobre
Pelotas, quando soube que Neto havia derrotado Silva Tavares no passo do Retiro.

Manuel, outra vez bombeiro, foi incumbido pelo coronel de espiar os movimentos da
fora do major Marques, o qual podia ameaar Piratinim, e dirigir-se  capital desde
que achasse o caminho desimpedido.

Eram oito horas do dia.

Oculto na coroa de mato, que cingia a crista de uma pequena coxilha a cerca de duas
lguas de Piratinim, o Canho espreitava a campanha, especialmente um ponto
distante,  margem do rio. Ali arranchara uma partida de exploradores destacados da
fora do major Marques.

Manuel a observava desde a vspera e suspeitava que achando a vila desprevenida,
tentasse uma surpresa; por isso a precedia obra de uma lgua, pronto a dar aviso aos
rebeldes, no caso de ataque.

Com os olhos fitos no alvo, e o corpo debruado sobre o pescoo de Juca, Manuel
absorvia-se no pego de recordaes dolorosas em que se debatia sua alma desde a
noite terrvel do combate. Nas trevas de seu esprito ressurgia, tocado pela doce luz da
esperana, o quadro que ele vira partindo: Catita a velar com terna solicitude pela
Morena, sua irm na beleza e na dedicao. Sbito aqueles dois vultos queridos
sumiam-se num turbilho espesso; e o painel suave no era mais do que um charco de
sangue coalhado de ossos.

A alma do gacho se embotara; nem para a vingana tinha mais as energias de
outrora. Vingar- se de quem, de um vil animal faminto, que saciara a rafa? Nessa
existncia fulminada s palpitava ainda uma fibra: a do dever, ou antes, da lealdade.
Dedicara- se a uma causa: no podia repudi- la.

No meio destas cogitaes, o plo do alazo que Manuel cobrira de uma crosta de lama
para disfar-lo, hispou- se com um ligeiro arrepio, e a ponta das orelhas afiladas
canutaram- se com excessiva rijeza, o que denotava extrema ateno. Despertado por
estes sinais, e vendo o largo peito do corcel que sublevava- se num amplo resflego,
Manuel lanando rapidamente a mo s narinas do cavalo, pde recalcar a tempo o
possante nitro que se desatava j.

Devia ser bem poderosa a causa, que assim perturbava o inteligente corcel, fazendo- o
esquecer sua prudncia e calma inaltervel em face do inimigo. O gacho embebeu o
olhar na pupila cintilante do cavalo e pela primeira vez no o compreendeu. Entretanto
nos ares passava uma repercusso quase imperceptvel, como o zumbir de uma vespa.




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                                                                        Pg. 58 de 107


Os exploradores ao longe arreavam os animais para partir. Manuel voltando s suas
lucubraes, observava maquinalmente o que ali passava, mas atravs da viso
horrvel que no o abandonava; ele via tudo por entre aquele prisma negro.

Outra vez o quadro suave da despedida assomou a seus olhos; mas a pouco e pouco
as imagens se debuxaram com mais vigor; os vultos animavam- se e viviam. A Morena
se erguera espasmando os flancos; o talhe esbelto de Catita ondulava-lhe sobre o
dorso, ufano deste trofu. A moa e a baia no formavam mais do que uma s
existncia e uma s pessoa. Era o tipo da beleza esplndida da campanha; a rainha
dos pampas; a gazela do deserto, a amante do centauro americano; a gacha enfim.

-- Manuel!

Quando esta palavra suspirou entre as folhas, como um arpejo da brisa, Canho levou
rapidamente as mos ao rosto para espancar a alucinao dos sentidos.

Mas era realidade e no sonho a suave apario. Catita assomava entre a ramagem,
por onde perpassou ligeiro o vulto da Morena. foram seus lbios que murmuraram o
nome dele; foram seus olhos que cintilaram na espessura.

-- Viva! balbuciou o gacho.

 ocasio de referir a cena que se passou depois do assalto dos chimarres.

Resignada a m orrer, Catita ficara debruada sobre o corpo da Morena. um dos
molossos primeiro arrojou- se, e abocanhando-lhe a saia arrancou uma tira. Com o
grito da moa, a gua despertou; e vibrando o casco, esborrachou o focinho do co.

O curativo da ferida e a nutrio que recebera tinham restitudo  baia algum vigor; e
                                 -
fazendo um esforo pde erguer se sobre as trs patas, e preparou- se para defender
valentemente a vida da amiga que velara sobre ela com tanta solicitude.

Nesse momento os latidos que a moa ouvira em distncia aproximaram- se; e um
turbilho passou ante seus olhos. Era uma rs com sua cria assaltada por outra
matilha de ces. o animal j ensangentado, s vezes voltava a face ao inimigo para
defender o filho; mas acossado fugia aps o bezerro.

Os molossos que haviam atacado Catita seguiram os outros e desapareceram com
eles. Aproveitando o respiro, a moa rompeu com a gua por dentro do mato, e
afastou-se o mais que pde daquele stio funesto. Morena a acompanhava a custo; de
vez em quando cedia  fraqueza; mas afinal chegaram  vila.

Entanto a rs exausta da fadiga, depois de muitas voltas pelo campo fora, veio cair
com o filho no mesmo lugar onde estivera a gua, pensando achar ali um refgio. A
matilha famulenta devorou-os ainda vivos: o banquete durara at a noite, poucas
horas antes da chegada do Canho.

J ento Catita tinha abrigado no quintal da casa a baia, que seus desvelos breve
restabeleceram. Depois de alguns dias, a moa pela manh, quando ia ao banho,



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                                                                         Pg. 59 de 107


montava mesmo em plo na Morena, que gineteava com ela pelo caminho, juntas
brincavam nadando no rio, e folgavam escaramuando pelo campo.

Pareciam duas amigas de infncia, a fazer travessuras de criana.

Nesse dia a baia despediu como uma flecha pelo campo afora; quando a moa a quis
reter, ela soltou um nitrido vibrante e redobrou a corrida. O corao de Catita palpitou
em doce alvoroo; pressentira a aproximao de Manuel.

No se enganara; ao cabo de meia hora, a baia resvalou sutilmente pela coroa de
mato, onde estava oculto o bombeiro: foi ento que a moa murmurou o nome do
Canho, a quem seus olhos agora distinguiam entre a folhagem.

Ei- los em face. Morena acariciou o senhor, e abraou o filho com o pescoo. Manuel
olhava Catita; e a moa embebia- se nesse olhar. Todo o tempo que a alma dele tinha
deixado de beber essa imagem querida; todo o tempo que a paixo dela se tinha
guardado, como o perfume de uma flor agreste, para influir- se no corao do amante;
todo esse longo passado, no vivido, resumiu-se naquele olhar.

Entretanto os exploradores, que tinham visto a baia passar ao longe e sumir- se na
coroa do mato, botaram os cavalos nessa direo, e suspeitando alguma emboscada,
deram uma descarga para desmascarar o inimigo.

As balas que sibilavam por cima de suas cabeas, no arrancaram os dois amantes ao
enlevo da paixo. Suas mos se tocaram: Catita reclinou a frente enrubescida; e
Manuel colheu a flor dos seus lbios mimosos que soluaram num beijo.

O tropel que reboou perto arrancou o gacho quele xtase inefvel. Impelindo a
Morena com um gesto, acompanhou de longe com os olhos o vulto da moa que
afastava- se rpida e sutil por entre a folhagem; depois arremeteu contra o inimigo.

Quem j observou os ziguezagues de um raio que listra o horizonte, pode fazer uma
idia do que foi a corrida do gacho pelo campo, atravs dos muitos inimigos que o
atacavam. Passou entre eles como a centelha eltrica, deixando um rastro sinistro; e
apagou- se de repente, submergindo-se no seio da terra.

Metidos, ele e Juca, em tremedal profundo, zombaram durante muitas horas das
pesquisas dos exploradores.




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                                                                        Pg. 60 de 107


Livro quarto
UPA!


I - A TIRANA

Que bela noite de luar jaspeia os cerros de Piratinim!

H uma festa na vila. O regozijo das primeiras vitrias da revoluo associa- se ao
prazer da novena. L no adro da matriz passeiam os bandos de moas e rapazes por
baixo das arcadas e palmeiras iluminadas com lanternas de papel de vrias cores.

Prximo ao coreto, no terreiro cingido por festes e colunas enramadas com folhas de
canela, danavam a tirana que  o lundu gacho. As violas trinavam no meio do coro
formado pelas risadas, pelos ditos joviais, e pelo rosetear das chilenas.

Catita, de pouco chegada, acompanhava com vivo interesse as evolues graciosas do
par, que sapateava no meio do terreiro. Amide seu corpinho gentil arfava com a
sbita expanso do passarinho que abre as asas para voar; o pezinho bulioso e
sfrego calcava o cho com mpeto, como se o quisesse repelir.

Ao lado da moa estava um mancebo elegante vestido a primor: tinha jaqueta curta de
veludo azul com botes de prata; a cala larga da mesma fazenda rematava em franja
de renda branca, pouco abaixo do joelho; o xale de touquim amarelo que servia de
faixa, apertava  cintura um punhal com cabo de ncar e uma pistola de coronha
tauxiada a ouro. Sobre as preguilhas de cambraia do peito da camisa, caam as pontas
do leno de gara escarlate, que ele trazia como gravata. As botas acamuradas de
couro de terneiro, copavam-se de modo a mostrar a perna bem torneada que
debuxava a meia de seda cor de castanha.

Esse casquilho era o nosso conhecido D. Romero, cujo semblante gentil e talhe
garboso davam mais realce ao lindo traje. Atirando o pala e o bolvar em cima de um
banco, o mancebo dirigiu galanteios  Catita, convidando- a  dana.

Enlevada com os elogios que fazia o mancebo  sua beleza, a moa pagava- lhe em
ternos sorrisos; mas recusava o convite, apesar da tentao da viola. Afinal tanto
insistiu o chileno que ela rendeu-se.

-- Pois sim! murmurou a medo.

Catita no queria tomar parte da funo por causa da ausncia de Manuel; porm no
pde mais resistir. H na natureza humana dessas excentricidades; o corao que nas
grandes lutas atinge ao herosmo,  de uma tibieza incrvel nas pequenas
contrariedades.

Essa moa, que j uma vez arrostara a morte por causa de Manuel; que em um acesso
de cime no recuara ante o maior sacrifcio; que, para receber o primeiro beijo de seu
amado, atravessara sorrindo por entre uma chuva de balas, seria capaz ainda em um
assomo da paixo de repetir qualquer daqueles atos de intrepidez e abnegao, porm



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                                                                        Pg. 61 de 107


no tinha foras para cerrar os ouvidos aos dengues de um casquilho, nem para
esquivar-se ao delrio do bailado voluptuoso.

O que  a vaidade na mulher, seno essa mesma vertigem que alucina o homem sob o
nome de glria? Sede insacivel de luz, embriaguez de admirao, na qual muitas
             -
vezes afogam se a honra e a virtude.

D. Romero saltara no terreiro, e bailava com a graa e a bizarria andaluza. Ningum
sapateava com mais garridice, fazendo retinir as rosetas das chilenas ao ritornelo
cadente do fandango.

-- Assim, roseteiro! diziam os rapazes com entusiasmo.

-- Por vida que a Catita fica pelo beio.

-- Que esperana! E Canho?

-- Leva carona!

O chileno tinha chegado a Piratinim quinze dias antes, e era novidade da terra. 
tarde, quando ele saa a gauchar no seu lindo cavalo castanho no havia moa que no
entreabrisse a rtula para deitar- lhe olhadelas matadoras. D. Romero, embora
apreciasse e retribusse essas demonstraes, assestara seus fogos sobre a filha do
Lucas.

Depois de algu mas voltas, o chileno atirou o desafio a Catita em um passo novo e
floreado que todos lhe invejaram.

-- Como arrasta a asa o peralta!

-- Mas no pilha!

-- Pois eu aposto.

Catita havia recusado o desafio de todos os rapazes da roda; e sabia- se o motivo, que
era a ausncia de Manuel. Agora estavam ansiosos por ver o que ela fazia. Uns
apostavam pelo Canho, outro por D. Romero.

-- Ento!

Essa exclamao partiu dos ltimos, vendo o talhe feiticeiro da menina colear- se,
como o pescoo de um cisne.

Mas o frmito de um corcel fendera os ares, atravessando por esse rumor festivo como
lmina buda que traspassasse um corao em jbilo. Um raio de lividez perpassou no
semblante da moa, que retraiu-se por um supremo esforo. Para disfarar o
movimento e responder  ateno geral, travou da guitarra, que a seu lado acabava de
afinar um cantor de modinhas.



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                                                                       Pg. 62 de 107


Depois de alguns preldios, soltou Catita esse descante:

Entre tantos que me querem
A nenhum posso querer:
Sorte que todos preferem
S um soube merecer.
 Ai! ai! no vejo meu bem.
 J tarda, por que no vem?:

Repetia ela segunda vez o estribilho, quando abriu-se a roda, e um vulto, arrebatando
a viola das mos do tocador, saltou da sela no terreiro. Era Canho.

No tarda, faceira, no
Tu chamaste; ele chegou;
Arreava o alazo
Quando a viola chiou.
           -
 T a-ri, ta la- ri, t-t.
 Teu bem, caramba, aqui est.

Manuel j no era o mesmo homem. O amor tinha domado o rei do deserto, o
centauro dos pampas: e o atirava de rojo aos ps de uma mulher. Ele danava com
bastante graa, fazendo ruflar as chilenas; e ningum improvisava melhor no desafio.
Entretanto quem o conhecesse passava por uma estranha surpresa, vendo aquele
carter indmito e rgido to fora de sua natureza. O gavio real, arrulhando como a
juriti, no produziria igual impresso.

Por sua vez Catita lanou- se de uma pirueta no torvelinho, com a veemncia de um
desejo por muito tempo sofreado. No se imagina a rapidez das evolues, a
flexibilidade dos requebros, e a sutileza do passo, que meneavam esse corpinho gentil
nas ondulaes voluptuosas da dana gacha.

Quem disse, que eu lhe chamei,
Enganou- o, meu senhor;
Se meu corao j dei,
No sou cigana de amor.
 Ai! ai! no vejo meu bem;
 J tarda, por que no vem?

O desafio continuou por algum tempo entre Manuel e Catita:

Ai, vida que me maltratas
Com este fino bailar;
Por que logo no me matas
Se tu me queres matar.
           -
 T a-ri, ta la- ri, t-t.
 Teu bem, menina, aqui est.

J se queixa que o maltrato;
Quem foi que me fez assim?



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                                              Pg. 63 de 107


Todo o     homem que  ingrato
No se     chegue para mim.
 Ai! ai!   no vejo meu bem.
 Se ele    tarda,  que no vem!

Machuca este corao,
Machuca, bem machucado,
Que tu no bailas no cho,
Mas neste peito chorado.
          -
T a-ri, ta la- ri, t-t.
Teu bem, menina, aqui est.

Corao de meu benzinho,
No havia machuc- lo;
Que lhe fiz aqui seu ninho
No meu peito pra guard- lo.
 Ai! ai! no vejo meu bem
 Tarda tanto;  que no vem.

Requebra, vidinha, assim,
Requebra- me esse corpinho,
No tenhas pena de mim,
Que estou feito um cavaquinho.
           -
 T a-ri, ta la- ri, t-t.
 Teu bem, menina, aqui est.

O cavaco  boa isca,
Chegando ao fogo se inflama;
Mas se meu peito fasca,
No h quem lhe sopre a chama.

Ai! ai!, que perdi meu bem;

 No espero mais ningum.

Tirana, meu bem, tirana,
Tirana de meu amor;
Por que assim voc me engana
A fingir este rigor.

T a- ri, ta-la- ri, t- t.

 J me vou, no torno c.

Quem me dera, ser tirana,
Pois havia ser querida;
Nem daria a quem me engana,
Tanto amor e minha vida!




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Ai, no fuja, no, meu bem,
Que me mata esse desdm!

O ltimo verso de Catita foi um rasgo admirvel da ttica feminina.

Reparando que D. Romero de arrufado se afastava, a faceira improvisou aquele
estribilho, que respondia a Manuel, e ao mesmo tempo consolava o chileno, a quem
ela o enviou em um olhar provocador.

Quando Manuel cheio de prazer voltava  roda, depois da dana, avistou pela primeira
vez o chileno, que nesse momento falava a Catita.

O corao do gacho confrangeu- se. A vista de uma serpente, elando-se ao corpo de
sua amada e cingindo-lhe o colo, no produziria nele a angstia que sentiu.

Algum, batendo- lhe no ombro, suspendeu talvez seu primeiro mpeto.

Deste pancas na tirana. Gostei!

Era o Chico Baeta que trazia de brao a Miss. A rapariga saudou o gacho com um
sorriso malicioso, lanando um olhar para o lado de Catita.

Ento? Vens tomar uma guampa?

-- Obrigado, respondeu Canho afastando-se.




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II - SEORITA

Terminara a festa.

Manuel, encostado  ombreira da porta de Fortunata, estava olhando o azul do cu
aljofrado pelo esplndido luar.

A rtula abriu- se.

-- Que me quer voc, Manuel? disse uma voz suave.

-- Dizer-lhe adeus, Catita. Vou a Buenos Aires! J estou de partida.

-- Que viagem  essa agora? exclamou a moa com voz trmula. E para to longe?

-- O coronel mandou.

Catita sabia o poder que Bento Gonalves exercia sobre o gacho.

-- Quando se quer bem...

-- Acabe, Catita.

-- No; para qu?

Manuel travou da mo da moa e falou- lhe com um tom rpido, apontando para o
canto da rua onde se percebiam vultos de animais.

Ali est Juca e Morena. Vem, deixemos o mundo; o pampa ser nossa ptria; ele 
imenso; ns o encheremos com o nosso amor. L seremos ns dois unicamente;
ningum poder separar- nos. Vem!

-- No, murmurou a menina assustada daquelas palavras e do tom em que eram
proferidas. Tenho minha me.

-- Ah! Ento bem v que devo partir. O coronel conta comigo.

-- Mas volte depressa, eu lhe peo!

-- E  preciso pedir- me, Catita?

A conversa prolongou- se; os dois amantes retardavam a hora da partida repetindo os
protestos e as juras de seu afeto. Afinal chegou o instante da separao.

Adeus, Catita. Lembra-te que hoje s tenho a ti no mundo. Minha vida  teu amor; tu
podes matar- me com uma palavra, com um olhar, como aquele que esta noite vi em
teus olhos...




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-- Manuel!

-- Aquele homem... disse Canho com a voz surda. Desde o primeiro instante em que o
avistei, tive um pressentimento de que hei de mat- lo; e nunca ofendeu- me.

-- Que me importa ele? Vai descansado, Manuel; tu levas minha alma, porque eu s
vivo para ti. Lembra- te que eu j te amava com paixo, quando tu nem sequer me
olhavas!

Um beijo selou estas ltimas palavras; e Manuel arrancou- se dos lindos braos que lhe
cingiam ternamente as espduas.

Quando ele afastava- se, viu  claridade da lua um vulto que o fitava com um s olho,
pois o outro, bem como grande parte do rosto, estava coberto de parches. Essa pupila
nica chamejando no meio daquela mscara tinha um aspecto sinistro.

Canho reconheceu Flix; e apoderou-se dele um sentimento de compaixo por aquele
infeliz. Podia ser morto o inimigo, depois que o vencera em combate; mas desonr- lo
marcando- lhe a fronte com o estigma de seu dio, no devia.

Foi com um aperto de corao que Manuel deixou Piratinim. Ainda o galope de seu
cavalo reboava ao longe; Flix que o vira partir apalpou na cinta o cabo de uma
navalha que trazia, e sorrateiramente foi se aproximando da rtula onde Catita se
conservava absorta na saudade de to repentina separao.

Como voltara Flix a Piratinim, depois do que era passado?

O mesmo dio que o levara ao campo dos legalistas, o trazia de novo para os rebeldes.
Desde que no se tratava de ensinar os castelhanos, pouco se importava que
vencessem os caramurus ou os farroupilhas; contanto que ele se vingasse do homem a
quem detestava.

Deixado por Canho no meio do campo, com um golpe que lhe fendera o rosto
transversalmente, vazando o olho esquerdo e rasgando os lbios, o rapaz conseguira
transportar- se a um rancho prximo, habitado por um peo com a mulher e os filhos.
A ficou alguns dias curando- se.

Flix sabia que tinha de ficar horrivelmente desfigurado com o gilvaz. Nunca mais
Catita o poderia amar, nem mesmo v- lo sem repugnncia. Que valia a vida para ele?
Estava pronto a d- la toda pela vingana: j no tinha neste mundo outra esperana,
outro fim, outro destino.

Qual seria porm essa vingana? Queria uma, estupenda, medonha, feroz como nunca
houvesse antes dele. Foi no delrio da febre de sangue, quando o crebro fervia-lhe
como o chumbo na retorta, que se gerou o horrendo aborto, jamais concebido pelo
rancor, em uma imaginao alucinada.

Manuel amava Catita, embora negasse. No tinha ele, Flix, em seu rosto a marca
indelvel desse amor cruel? Pois bem; quando o namorado estivesse de todo rendido



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pela moa; quando pusesse sua ventura em olhar para aquele rosto feiticeiro, ento se
levantaria a mo implacvel da vingana, e...

-- Eu farei dela, o que ele fez de mim; uma caveira viva! murmurou o enfermo
estorcendo- se no delrio da febre. Catita ficar horrvel. E eu matarei assim de fome a
alma do co, como ele matou- me a esperana de minha vida! Quem poder amar a
fria? S eu; como s ela me poder amar!

O sonho dessa monstruosa paixo entre dois monstros brilhou nas alucinaes do
enfermo como o laivo sinistro de um relmpago no meio do vermelho claro de um
incndio.

O sobrinho de Lucas tendo chegado  vila na vspera, inventou facilmente um motivo
para explicar sua presena no acampamento de Silva Tavares. Encontrando- se com
alguns bombeiros inimigos, os acompanhara para obter esclarecimentos, que deviam
servir de muito a Bento Gonalves e Neto. Depois de alguns dias, desconfiados, os
companheiros quiseram mat- lo, e ele batendo- se com valentia conseguira escapar-se.

-- Mas ficaste ferido? perguntou o furriel.

-- E logo no rosto! disse Catita com sincera compaixo.

-- Isto foi depois! respondeu o rapaz secamente.

-- Conte! insistiu a moa.

Flix cravou nela a solitria pupila, com uma expresso cruel.

-- Eu lhe contarei um dia!

Miss que estava presente surpreendeu esse olhar torvo, e sentiu a repercusso do
que passava na alma do peo.

Desde a noite do pacau, a existncia livre e descuidada da rapariga sofrera uma
alterao profunda. No fora porm o fato de ter o Chico feito dela uma parada de
jogo, que produzira o abalo; longe de a ofender, aquela ao a enobrecera; sentia
orgulho em sacrificar- se por seu amante, e prazer vendo a confiana absoluta com que
seu homem dispunha dela, como de uma coisa inteiramente sua.

O que a humilhou cruelmente foi o desdm de Canho; depois de a ter ganho em uma
partida to disputada, deixou- a como uma coisa - toa, que no valesse a pena
abaixar- se para apanhar do cho. De que lhe servia ser bonita e sedutora, se um
homem se julgava com o direito de escarnec-la?

Este despeito seria passageiro talvez se no sobreviesse uma circunstncia para aviv-
lo a cada hora. Miss observou nas maneiras do Chico sensvel mudana; as ardentes
efuses e as repetidas carcias de outrora iam amortecendo. A causa desse
resfriamento, a rapariga o pressentira logo: era o desdm de Canho, que influa
indiretamente sobre o peo.



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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                         Pg. 68 de 107


Quem no conhece os efeitos desse contgio moral, sobretudo quando uma
organizao elevada domina as individualidades inferiores? Chico, depois da
indiferena do gacho, comeou a achar sua amantes menos formosa, e a subtrair- se
 fascinao que a rapariga tinha exercido sobre ele. Cada manifestao desse
arrefecimento era um espinho que traspassava o corao de Miss.

Desde ento gerou- se na alma da rapariga um desejo veemente e irresistvel de ser
querida pelo Canho, ao menos um dia, uma hora, quanto bastasse para aplacar sua
vaidade ofendida. O amor de Manuel por Catita causava- lhe cime implacvel.

Nestas condies a Miss devia compreender o olhar de Flix; havia uma afinidade
entre as paixes que tumultuavam no seio de ambos.

Tal era a disposio de nimo em que Flix espreitava da rua deserta o vulto da filha
do Lucas, reclinada na janela, com a fronte pensativa apoiada na rtula. Um raio da
lua, passando pela aberta do telhado fronteiro, esbateu contra a parede; e o lindo
semblante da menina desenhou-se naquele limbo de luz com enlevadora suavidade.

O peo que cerrava com a mo convulsa o cabo da navalha, preparando o salto, ficou
imvel e exttico ante aquela doce apario que emergira da sombra. A beleza da
menina ainda exercia sobre ele uma poderosa fascinao: sua coragem vacilou; a mo
tremeu horrorizada. Ento apagando-se a lembrana do que o trouxera ali, o rapaz
embebeu- se na contemplao daquela imagem querida.

Quanto tempo esteve assim no o soube. De repente foi arrebatado quele sonho
inefvel por uma dor cruciante. Catita gazeou na ponta dos lbios o estribilho da
cantiga do gacho, que Manuel costumava repetir ao som da viola.

Toda aquela admirao, que sentia Flix um momento antes, se transformou em raiva.
Cerrando outra vez o cabo da navalha com terrvel frenesi, arrojou- se brio de clera e
cego de furor.

Mas a imagem de Catita desaparecera. To fora de si estava o rapaz que no percebeu
a causa. Um vulto se aproximara da rtula interceptando- lhe a vista, e proferira em
voz baixa uma palavra castelhana:

-- Seorita!

A moa assustada bateu precipitadamente a rtula: e D. Romero atordoado achou- se
em frente de Flix que brandia a navalha. Quando o chileno sacava rapidamente da
cintura o cuchillo para defender-se, o peo que tivera tempo de compreender a
situao, recuou:

-- Desculpe; no era o senhor que eu procurava.

E sumiu-se.




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                                                                          Pg. 69 de 107


III - NOIVA

Um ms j tinha decorrido depois que Manuel partira de Piratinim para cumprir a
misso que lhe dera Bento Gonalves.

Era meio- dia. Francisca e a filha jantavam, quando ouviram o tinir de chilenas; o
gacho entrava. Jacintinha saltou- lhe ao pescoo dando gritos de prazer; a me
ergueu- se, mas no podendo correr por causa da emoo, de longe mesmo abenoava
o filho enquanto no o podia abraar.

-- Por c no houve novidade? perguntou Manuel sentando- se.

-- S muitas saudades suas, respondeu Jacintinha.

-- E cuidados, acrescentou a velha.

-- Ento lembraram- se de mim?

-- Pois isso se pergunta Manuel? disse a moa com doce exprobrao. Est vendo que
ingrato mezinha?

-- O compadre j venceu?

-- Ainda no, mas no tarda.

-- Ento ainda voltas?

-- Parto esta noite. Venho de Buenos Aires, onde meu padrinho mandou- me levar uma
carta a Rosas. Aproveitei para lhe dar um abrao, no posso demorar- me.

Jacint inha, que tinha corrido ao terreiro para festejar e abraar Morena, Juca e os
outros amigos, entrou plida, com os olhos midos:

-- E o Morzelo, Manuel? disse a moa.

O gacho ergueu os olhos ao cu.

-- Coitado!

Houve um instante de silncio.

Durante o jantar a conversao rolou j sobre os sucessos da revoluo, j sobre os
acidentes da casa durante a ausncia de Manuel. Terminada a refeio veio o mate, e
o gacho, preparando um cigarro de palha, foi pitar no alpendre, onde o
acompanharam a me e a irm.

Antes de se aproximarem de Manuel, as duas mulheres trocaram entre si em voz baixa
algumas palavras que acenderam nas mimosas faces de Jacintinha vivos rubores.



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                                                                        Pg. 70 de 107


-- Agora, quando as coisas se arranjarem, a me h de ir a Porto Alegre.

-- Eu, meu filho? Daqui para a cova de teu pai. No presto mais para nada.

-- Ora deixe-se disso. E quem h de criar os seus netos... quando a Jacintinha casar?

-- Sim,  tempo de pensar nisso; j est uma moa.

-- E bonita, que faz gosto!

-- Muito obrigada. Foi voc que me pegou essa molstia.

No deixaram as duas mulheres de sentir no trato e na expresso de Manuel grande
mudana; mas entregue ao prazer de o ver, no tinham tempo de reparar no tom
expansivo e meigo com que falava o gacho; to diverso do gnio seco e rspido de
outrora.

Continuando a conversa por algum tempo, observou Manuel que Jacintinha no
cessava de fazer  me sinais misteriosos.

-- Jacintinha tem algum segredo!

A velha sorriu e a moa fez-se de lacre.

-- Fala, menina!

-- No! Fale voc, mezita!

-- Pois sim.

-- O que ?

-- Espere! exclamou Jacintinha fugindo confusa e envergonhada.

Ficando s, Francisca referiu a Manuel que um moo castelhano de passagem por
Ponche- Verde, gostara de Jacintinha e a pedira em casamento; porm ela respondera
que nada decidia seno pela vontade de seu filho. Ento ficou assentado esperarem
pela volta dele, Canho.

-- Jacintinha est cada pelo diacho do rapaz e ele merece porque  muito galante e
tem alguma coisa de seu.

-- Que faz ele?

--  mascate.

-- Castelhano... mascate... Como se chama? pe rguntou o gacho com ansiedade.




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                                                                        Pg. 71 de 107


-- D. Romero Garcia.

-- Ele!... exclamou o gacho erguendo- se arrebatadamente.

Por algum tempo Manuel percorreu o alpendre com passos agitados, at que dominado
seu abalo, aproximou- se da me, que o observava surpresa, sem nimo de fazer- lhe
uma pergunta.

-- Com esse homem  impossvel! Jacintinha seria desgraada. Ela que se esquea
desse sujeito; no faltam noivos galantes, sobretudo quando a noiva  de fazer inveja.

-- Porm, Manuel...

-- No se fale mais disto.

Sabendo da resoluo de Manuel, Jacintinha chorou amargamente; mas uma s queixa
no proferiram seus lbios contra o irmo, que ela amava.

O Canho selava o Ruo, preparando- se para a partida, quando chegou- se a irm que
vinha despedir- se da Morena e dos outros animais. Havia em seus olhos os traos do
pranto recente e na fronte uma sombra de mgoa.

-- Voc est triste, Jacintinha? perguntou o Canho, lembrando- se de Catita.

-- No, balbuciou a menina, debulhando- se outra vez em lgrimas.

                                                                -
Manuel amava, e sua alma passava ento por aquela fase de bem aventurana, que
anuncia o despertar do corao e  por assim dizer a aurora suave do amor. Como
podia ele ser de todo indiferente s mgoas de uma alma enamorada?

Esquecendo o mascate, Manuel pediu  irm que lhe contasse como nascera sua
afeio. Se fosse feliz, Jacintinha no teria foras para satisfazer a curiosidade de
Manuel, mas era desgraada. Referindo o romance de seu amor, a ingnua menina mal
pensava que expunha o plano de seduo empregado pelo chileno, e do qual
felizmente a salvara sua austera virtude.

A Canho, porm, no escaparam as intenes de D. Romero; e foi estremecendo de
horror que ele ouviu estas palavras, com as quais a irmo concluiu:

"Na vspera da partida, ele ceou aqui; eu pedi-lhe muito que ficasse at voc chegar;
mas recusou, dizendo que s uma coisa o faria no sair de madrugada como esperava.
No sei o que era. Quando estava para se despedir, disse- me que havia de passar a
noite no rancho com os olhos fitos na janela de meu quarto e por isso me pedia que a
deixasse aberta.

Depois que ele se foi, eu me encostei na janela, para que me visse; mas comecei a
sentir tanta fraqueza que no me podia ter; cuidei que ia desmaiar. De repente, no
sei como, ele estava junto de mim, abraando-me; eu queria fugir e chamar por
mame, mas no tinha foras. Ento me deu um beijo, que me fez desmaiar de todo,


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soltando um gemido. Mezita correu para ver o que era e no viu mais ningum. Ela
diz que eu sonhei; mas eu ainda sinto aqui o beijo, que me queimou."

O pudor, esse anjo da guarda da menina casta, salvara Jacintinha, arrancando- lhe
aquele gemido profundo que assustou a me. Canho compreendeu perfeitamente o
perigo por que passara a irm, e por vezes seus olhos dardejaram. De repente sentiu
congelar-se o corao, lembrando- se que deixara Romero em Piratinim, perto de
Catita.

Jacintinha, muda e palpitante, esperava com os olhos fitos na fisionomia do gacho,
onde perpassavam os vislumbres das paixes que se agitavam nessa alma vigorosa.

-- No fiques triste, Jacintinha. Se esse homem for digno de ti, casar contigo. E te
prometo que antes de um ms voltarei com ele. Ests contente?

-- Mas o que acha voc nele?

-- Eu no o conheo; vou tirar informaes.

Manuel dizia a verdade. Ele nada sabia desse indivduo a quem encontra ra por
momentos quatro vezes apenas em sua vida, e de quem nunca se lembrara de
indagar. E para qu? Antipatizara com aquela figura desde o primeiro momento em
que a vira; e at onde ia essa ojeriza, ele o disse a Catita.

Uma idia, porm, lhe acudira, que mudou o curso de seus pensamentos. Se o
mascate no fosse um bandido, por que no o obrigaria a cumprir a promessa feita a
Jacintinha, casando- o com ela? Assim ao menos esse ente intil, seno prejudicial,
serviria para dar alguma felicidade  mulher que o amava sinceramente.

Uma hora depois Canho montava a cavalo e partia  desfilada.

Ao despedir- se, j na sela, disse  Francisca, sorrindo com inteno:

-- Daqui a um ms c estou de volta!

Jacintinha corou.




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IV - NA MISSA

Era domingo. O sino da matriz de Piratinim tocara a primeira vez chamando para a
missa.

J pronta, com seu vestido escarlate e mantilha preta, Catita esperava impaciente que
a pachorrenta Maria dos Prazeres se acabasse de enfeitar. A menina ia da porta do
quarto de sua me  porta da rua, donde lanava um olhar para o largo.

Passou a Miss.

-- No vem?

-- Mame no acaba de se aprontar.

-- Ele j deve estar l! disse a rapariga com um riso malicioso.

Catita corando fugiu para dentro e achou a me ainda de angua, mas j com o
enorme pente de tartaruga pregado no coc,  semelhana do tejadilho de uma antiga
traquitanda. A moa voltou desesperada; lgrimas de despeito lhe saltaram dos lindos
olhos.

-- No tarde muito, olhe l! tornou a Miss com o mesmo riso brejeiro. Tantas que
morrem por ele !...

-- Eu no sei o que tem mame hoje! Nem de propsito!

-- Quem sabe se j percebeu?

A menina deu um muxoxo.

Finalmente Maria dos Prazeres concluiu a obra monumental de seu penteado, e partiu
para a missa com a filha.

A igreja estava cheia quando chegaram. Atravessando por meio do povo, Catita passou
roando com D. Romero. O chileno aproveitou o momento para apertar a mozinha
mimosa que refugava os folhos da saia, e murmurar uma palavra.

--  meia- noite na rtula?... Sim?...

Catita esquivou- se trmula e foi sentar- se distante. Nesse momento teve um remorso;
e pediu perdo a Deus, invocando a lembrana de Manuel.

Debalde procurou ela refugiar- se na orao e nas reminiscncias de seu amor. Sentia
fascinao irresistvel que a atraa. A vaidade de cativar o bonito chileno, que tantas
outras lhe disputavam, o prazer de triunfar de suas rivais, sopitava o remorso que a
pungia.




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Se ainda amasse Manuel com os extremos de outrora, estaria preservada de
semelhante fraqueza. Mas aquela paixo, como todas as exploses violentas, foi
sbita. A exuberncia de sua alma bastava para nutrir durante a vida inteira um afeto
ardente e profundo; porm ela a despendera durante alguns dias nas expanses do
amor insano que rojara aos ps do gacho. Seu corao devia ficar fatigado, seno
exausto; a vaidade embebeu- se nessa esponja seca.

Catita sofrera uma desiluso. O homem por quem ela se estremecia era o gacho
terrvel; o carter indmito que afrontava o cu e desdenhava do perigo; o filho do
pampa, que avassalava o deserto e calcava o mundo com a pata de seu corcel.

Esse heri de seus belos sonhos, esse rei de sua alma, ela o admirava com um
entusiasmo ardente. Para merecer- lhe um olhar, o que no fez? Para ser por ele
amada, no hesitou em sacrificar- lhe em tudo. Ela, to altiva e semp re adorada,
suportou sem queixar- se o desprezo; e sujeitou- se s maiores humilhaes para
merecer desse homem um sobejo que fosse de afeio.

Manuel, que uma repugnncia invencvel afastava dessa moa, apesar da fascinao
de seu olhar, Manuel afinal a amo u; e ento, rompido o bice que por tanto tempo
contivera seu afeto, este se despenhou, como uma catarata, arrojado e impetuoso. O
corao, durante tantos anos sopitado, sentiu ao despertar uma sede insacivel de
amor.

Nos dias que se seguiram ao encontro na coroa de mato, e ao primeiro beijo trocado
entre os sibilos das balas, Canho no se fartava de olhar e admirar Catita, de beber-
lhe o sorriso dos lbios, a graa e perfume de sua formosura. Abandonando a luta da
revoluo recente, recolheu- se a Piratinim para estar perto da mulher querida e no
perder um instante de adorao.

Catita viu o rei de seu corao, o senhor de sua existncia, transformar- se de repente
em um servo humilde e cativo, submisso a seus menores desejos. Libado o primeiro
prazer desse triunfo, a moa foi insensivelmente subtraindo-se  poderosa influncia
que sobre ela exercia o gacho.

Manuel tinha o garbo natural do talhe e das maneiras; agora, que amava, sua
fisionomia se embebera de uma expresso meiga e terna. Para quem no o
conhecesse antes, era um taful quando vestia o seu chirip de seda escarlate e sua
jaqueta de merin verde; ou quando danava a tirana, requebrando o corpo e
arrastando a asa.

Mas para quem o vira outrora, aquela excessiva ternura embotava seu enrgico
semblante; o sorriso namorado parecia hspede nos lbios de ordinrio cerrados pela
contenso de uma vontade firme e rgida. Juca, o selvagem corcel, o livre bagual, filho
dos pramos, j no reconhecia naquele mancebo guapo o seu amigo e irmo, o
intrpido ginete, como ele fero e indmito.

                              -
A alma que uma vez subtrai se ao domnio de outra, reage com um impulso
irresistvel. Na h pior dspota do que seja o cativo submisso, quando se revolta.




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O amor de Catita, de escravo que era, tornou- se verdadeiro tirano. Submeter essa
alma que a tinha dominado outrora aos mnimos caprichos; fazer do gacho terrvel,
que os mais bravos temiam, um brinco de moa faceira, e folgar com as paixes
violentas daquele corao como uma criana imprudente com as lavas de um vulco,
foram os deleites dessa afeio.

Depois que Manuel partira, sentiu a Catita um vcuo em sua existncia; os galanteios
de D. Romero a divertiram a princpio, depois lisonjearam sua vaidade de moa bonita.
A Miss desenvolveu ento uma arte admirvel para perder sua rival; no lhe
escapava ocasio de excitar o orgulho da amiga e de facilitar ao chileno os meios de
aproximar- se dela.

D. Romero conseguiu por duas ou trs vezes falar  Catita na rtula; mas de longe em
longe. A moa lembrava- se s vezes dos protestos que fizera a Manuel, e mostrava-se
ento esquiva e receosa.

Quando o chileno na igreja lhe pedira em voz baixa uma entrevista alta noite, a moa
estremecendo procurou expelir de seu corao a imagem daquele homem; mas no o
conseguiu. Momentos depois seus olhos o procuravam.

D. Romero com um gesto desdenhoso parecia t- la esquecido; e sorria a algum do
lado oposto. Catita reparou: era uma rival. Seu olhar splice pediu perdo.

Acabada a missa, quando ela passava corando perto do chileno, este murmurou de
novo, mas com um tom breve e imperativo:

-- Espera?

-- Sim, balbuciou a moa.

Nesse momento ouviu um riso sardnico; voltando-se, avistou Flix que fitava nela a
pupila sinistra, isolada naquele rosto sempre coberto da mscara hedionda. Teria ele
escutado?

Catita afastou- se com uma aperto de corao.

Sua suspeita era real. Flix ouvira as palavras trocadas, e adivinhara o resto. Com o
faro da vingana ele pressentira o namoro do chileno desde a noite da partida de
Manuel; e por isso abandonara, ao menos por en quanto, seu primeiro plano. Ferir o
corao de seu inimigo, fazendo da amante um horror, era cruel; mas tortur- lo com a
perfdia da mulher amada, seria atroz.




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V - CONFEITOS

 meia- noite, D. Romero embuado em um poncho escuro, passeava defronte da casa
de Fortunata.

Mais longe, na esquina da matriz, um vulto cosido com a parede e oculto pelo ngulo
da rua, espreitava desde muito tempo os movimentos do namorado.

Eis que o primeiro galo soltou alm nalgum quintal remoto o grito de alerta, a que os
outros responderam sucessivamente; a rtula abriu- se timidamente, e fechou- se logo.
Aproximou- se D. Romero, que sentiu atravs do gradil um hlito ardente e perfumado.

-- Querida! murmurou o taful.

-- O que ?

-- Abra um pouquito.

-- No; tenho medo.

-- Medo de qu, flor? De ser amada, como jamais foi outra mulher neste mundo? Ou
medo de matar- me de felicidade, com a luz desses olhos formosos?

A rtula entreabriu- se de leve, mas quanto bastou para que o namorado passasse a
mo, a fim de impedir que ela se fechasse de novo. A conversa continuou pela fresta.

-- Eu trouxe um regalito para voc, querida. Adivinhe o que ?

-- No sei!

-- Pois olhe!

Alargou-se a fresta; e na sombra desenhou- se o perfil do rosto encantador da moa,
que reclinava a fronte para olhar o objeto na m o do chileno.

-- So confeitos mui lindos, disse ele. Quero adoar este corao ingrato, que me faz
tanto penar. Prove para ver como so gostosos!

D. Romero tirou ento do cartucho, enfeitado com lao de fita e perfumado de
baunilha, um confeito que retirou rapidamente quando a moa quis toc- lo com o
dedo.

-- H de ser na boca!

-- Ora!

-- Que mal faz?




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-- Tenho vergonha.

-- Tome; eu lhe peo.

Depois de alguma resistncia, Catita consentiu em colher sutilmente com a ponta dos
lbios o confeito que lhe oferecia Romero, o qual repetiu o galanteio por duas ou trs
vezes.

Um suspiro sublevou o seio da moa:

-- Ai!... Estou to cansada! No sei de qu!...

-- De ser cruel? perguntou o taful sorrindo.

-- Que noite to linda!... Como  bom gozar desta frescura.

Os lbios de Catita debulhavam as slabas dessas palavras, com uma voz frouxa e
lenta, enquanto os olhos se engolfavam no azul difano com um sentimento de delcia
inefvel. Depois, cedendo  languidez que a invadia, a fronte reclinou-se apoiando na
ombreira da janela.

-- Que preguiosa! disse D. Romero gracejando.

Entretanto o vulto da esquina, cosido  parede, assistia de longe a esta cena em
extraordinria agitao. s vezes arrojava- se para diante com os dentes rangidos,
levando  cinta a mo que apertava o cabo da faca. Nessas ocasies porm algum
motivo detinha; agarrava- se ao ngulo da parede, procurando um apoio para resistir
ao mpeto, e para dominar o impulso da carreira, que malgrado seu erguia-lhe os ps
do solo precipitando- o. Por fim deixou- se cair de joelhos; e ficou ali estrebuchando
como um homem na agonia.

Sem dvida um sentimento mais poderoso sobrepujava o cime que no primeiro
momento impelia o desconhecido contra o rival feliz. Mas a luta se renovava a cada
instante; e ningum podia prever o resultado final desse choque de duas paixes
infrenes.

De repente um bramido rompeu do peito cavernoso do desconhecido, que se
arremessou com um salto de tigre.

Vira a rtula escancarada e pressentiu o que ia acontecer. Quando chegou ao lugar, a
janela estava completame nte fechada; e o chileno havia desaparecido. Onde podia ele
estar, seno dentro da casa?

O desconhecido quis atirar- se contra a janela, para despeda- la; mas foi subitamente
paralisado pela mesma fora que de outras vezes o sofreara. Dos beios crespos de
clera escaparam -lhe, como uma golfada de fel, estas palavras envoltas em um riso de
fera.

-- Se no for este maricas, h de ser o outro, o co!


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Dobrando- se com um movimento de desespero, para arredar- se da janela, deitou a
correr como um possesso pela rua fora.

Nessa noite, Lucas Fernandes estava de guarda  entrada da vila, em uma casa que
servia de quartel. O furriel promovido a alferes fora ultimamente ferido em um
combate; e por isso resignava- se a ficar em Piratinim, quando se combatia em Pelotas,
Cam ac e So Jos do Norte.

Tinha o miliciano se deitado depois que fizera o seu quarto a pitar e a palestrar com os
camaradas; roncava, como um porco, atirado sobre o couro que lhe servia de cama.
Eis que chega um homem a correr.

-- Que  isso, Flix! disse um dos gachos que estavam de vigia. H novidade?

-- Quero falar ao Sr. Lucas.

-- Sobre qu?

-- O negcio  s com ele.

-- Desembucha duma vez.

-- Onde est o homem?

-- Olha! Se fores capaz, acorda-o.

--  uma pedra no fundo dum poo.

Foram precisos com efeito os maiores esforos para despertar o furriel.

-- Que diabo me querem vocs?

Flix murmurou algumas palavras rpidas ao ouvido do miliciano, que ainda tonto de
sono, no percebeu- lhes o sentido.

-- Hein!...

O rapaz repetiu; desta vez o pai de Catita, compreendendo, soltou um berro
formidvel.

-- Hei de espatif-lo!

E partiu a correr, brandindo furiosamente o chanfalho, e acutilando o vento com
desespero. Flix o seguia de perto, conduzindo o troo dos soldados e gachos que
estavam acordados e tinham ouvido o grito do miliciano.

Apesar da diligncia empregada por Flix para chamar o Lucas, eram decorridas perto
de duas horas depois que se fechara a rtula. Oculto na esquina desde o princpio da



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                                                                           Pg. 79 de 107


noite, o rapaz vira sair o furriel, mas ignorava o lugar para onde se dirigia; por isso
antes de chegar ao quartel, havia batido em diversas casas, onde costumava ele
passar as noites jogando e prosando.

A porta de entrada estava interiormente fechada. O pai, ferido na sua honra, no
esperou que a viessem abrir; ajudado por Flix arrombou- a, enquanto os gachos
punham cerco na casa pela frente e pelo quintal.

Ao estrpito da porta espedaada, as duas matronas soltavam gritos estridentes, que
de envolta com os latidos do co, os miados do gato e o cacarejar das galinhas
formavam um concerto horrssono. A habitao estava completamente no escuro; foi
preciso que Flix, tirando fogo do isqueiro, acendesse um grane molho de palha
arrancado a um rancho prximo.

Ao claro desse facho, Lucas penetrou no interior; antes porm de entrar, voltou- se
para os gachos que cercavam a casa e lhes disse com uma voz que a raiva
estrangulava:

-- No o deixem fugir; mas no o matem. Quero trinc-lo vivo.

O mpeto do furriel esbarrou no limiar do quarto da filha. Catita em p, com os cabelos
desgrenhados, as vestes decompostas e os braos abertos enchia o vo da porta,
impedindo a passagem. O talhe curvado para diante e a fronte reclinada, exprimiam
submisso  clera paterna, ou inteno de afrontar o perigo.

-- Sai! gritou o pai.

-- No.

Lucas arrojou- se levando por diante a moa que foi bater contra a parede do aposento,
quase desmaiada. Em um momento foram corridos todos os recantos do quarto, mas
inutilmente; ningum encontraram.

-- Viste com teus olhos? perguntou Lucas a Flix, sentindo renascer uma vaga
esperana.

-- Olhe! disse o rapaz apontando.

No poial da janela via- se o pala de D. Romero e o seu chapu  bolvar. Esse vestgio
de sua desonra, levantou no corao do pai ultrajado uma clera to violenta, que de
um mpeto arremessou a filha ao cho para esmag- la debaixo dos ps.

Maria dos Prazeres que chegava, e j advertida do que ocorrera, acudiu envolvendo a
filha com os braos.

-- Misericrdia! meu Deus!




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                                                                        Pg. 80 de 107


O grito de aflio da me aplacou no corao do pai a sanha feroz que dele se
apoderara. Erguendo os olhos ao cu para pedir perdo da morte que estivera a
consumar, Lucas estremeceu.

Entre dois caibros apareciam quebradas as ripas: as telhas que deviam cobri- las
escorregando tinham deixado vo suficiente para a passagem de um homem de talhe
delga do. No havia dvida; o chileno se escapara por ali e talvez no andasse longe.

Com um gesto, o furriel mostrou a aberta a Flix e aos gachos que assistiam  cena.
De chofre esvaziou- se o aposento; todos haviam compreendido instantaneamente, e
        -
lanaram se no encalo do fugitivo.

Enquanto os outros iam pelo cho bater os arredores, Flix cravando a faca na parede,
e apoiando o p na janela, alcanou um caibro e ganhou o telhado da mesma forma
por que o fizera meia hora antes o chileno.

Ouviram -se ento brados de furor e estrpito de armas, do lado da matriz. Lucas
correu naquela direo seguido pelos pees: e dois tiros soaram repercutindo ao longe
pelas cavernas dos cerros.




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VI - VOLTA

O sol brilhava em meio de um cu do mais lindo azul. A aragem branda, esgarando as
nuvens que apareciam no horizonte, franjava de branco arminho esse manto
aveludado.

Catita, encostada  ombreira da janela, cismava, contemplando os esplendores do dia.

O semblante sempre risonho e petulante da graciosa menina, estava amortecido pela
mgoa. Fatigados e baos, os olhos apenas se inflamavam por momentos de efmeros
lampejos; e esse no eram mais as cintilaes da estrela, porm os surdos vislumbres
de um incndio sopito. Nos lbios se desvanecera o delicado matiz; a vespa babuja ra
essa rosa florida, pungindo-lhe o seio.

Um noite, algumas horas, bastaram para produzir nessa vida uma revoluo profunda.
A menina gentil e descuidosa j no existia; na expresso da fisionomia, como na
atitude de seu corpo, ressumbrava a preocupao d'alma ao transpor o limiar desse
caos que chamam o mundo.

Na folhagem de uma rvore fronteira  janela dois gaturamos, cuja penugem brilhava
ao reflexo do sol como pingentes de esmeralda, se namoravam, adejando de ramo em
                                                                 -
ramo, e chilrando o seu canto mavioso; os olhos de Catita fitaram se um instante
naquela cena e se anuviaram. Duas lgrimas ardentes lhe desfiaram pelas faces.

Como se aquele pranto a humilhasse, a moa enxugou rapidamente os olhos, e erigiu
a fronte arrostando o pesar que um momento a oprimira.

-- Sou feliz!... Ele me ama!...

 O lbio, murmurando estas palavras, esboara um sorriso que se desfolhou como a
flor plida do outono, ao sopro ardente do suo.

Insensivelmente o esprito da moa, desprendendo-se deste incidente, voltou 
preocupao constante, que desde a vspera o absorvia. Seu pensamento remontava
ao dia da partida de Manuel, e acompanhava o curso de sua vida durante essa ltima
fase. Chegava a um ponto em que um abismo se abria a seus ps, e ela se precipitara
nele sorrindo, enlevada em um sonho voluptuoso.

Era no momento em que sentindo- se cansada recostara a fronte lnguida na ombreira
da janela. D. Romero estava ali a galantear; ela j no escutava suas palavras, mas
sentia- se embeber da voz e dos olhares do cavaleiro.

Os dedos mimosos, que a princpio retinham a rtula com tamanho cuidado,
afrouxaram deixando- se colher pela mo impaciente do chileno. Ela, Catita, pensou em
esquivar-se, mas no pde. Por qu? No sabia se eram as foras que lhe faltavam, ou
a delcia do xtase que a engolfava.

Depois Romero debruou- se na janela, cingiu- lhe o talhe, conchegando- a ao seio, e
pousou um beijo ardente em seus lbios vidos. Foi ento que a rtula fechou- se sem



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que ela se apercebesse, e o sonho inefvel continuou at o instante em que a
despertou um estrpito horrvel.

--  seu pai! disse Romero.

-- Que quer ele?

-- Matar-me!

Essa palavra a arrancou ao doce enlevo. S ento sentiu que estava na profundeza do
abismo, e no no bero areo das nuvens, embalada pelo sopro acariciador das brisas
c elestes.

Como se dera esse transe em sua vida? Eis o que ela no compreendia, o que desde a
vspera perscrutava sem cessar nos refolhos da conscincia, e no achara ainda em
sua alma a explicao, ou pelo menos os indcios da fora poderosa que a precipitara.

Nessa cogitao, sobressaltou- se a moa; acudia- lhe uma circunstncia mnima, que
at ento escapara. Fora depois de ter provado os confeitos que ela caiu no suave
delquio, desamparada inteiramente de sua vontade.

Tinha Romero usado de algum filtro pa ra rend- la ao seu amor?

No se enganava Catita nesta suposio. De fato o chileno, resolvido a rematar
naquela noite a aventura que j o detivera demais em Piratinim, e no querendo
contar s com seu galanteio, recorrera a um meio eficaz e por diversas vezes
empregado com feliz xito.

Em seu giro constante, o mascate encontrara outrora nos pampas um velho guaicuru
que tinha por costume embriagar- se com o suco de uma planta indgena. Bastava- lhe
sorver dessa resina a poro contida na unha para cair em um torpor, que logo se
transformava em rapto celeste.

D. Romero a troco de ferragens e munies comprara do ndio velho uma poro da
resina, e tendo experimentado por si mesmo o efeito, compreendeu que lhe podia
prestar, em certas ocasies, grande servio, vencendo em minutos resistncias que
durariam longos dias.

Fora um grumo dessa resina deitado sutilmente na cuia de mate, que ia - lhe
entregando Jacintinha, se o pudor indignado no reagisse contra a ao do narctico,
arrancando o gemido doloroso que repercutiu no corao materno.

Os confeitos perfumados que ele dera a Catita estavam impregnados da mesma
essncia inebriante; mas a filha do Lucas, seduzida pela vaidade, no teve para
proteg-la, nem o vu casto do pudor, nem a ara do amor materno.

Entretanto, quando lhe acudia a explicao to sofregamente procurada; quando a
interveno dessa causa estranha lhe fazia compreender o que antes parecia




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impossvel, Catita, por uma contradio inexplicvel, repelia essa idia e exclamava
consigo:

-- No! No foi isso!...

Em seu orgulho no se podia considerar uma vtima. Fora ela mesma, que decidira de
sua sorte; e empenhara tudo ao homem a quem amava.

Eis que soa ao longe o relincho de um cavalo. Catita estremeceu. Aquela nota
selvagem, afinada na grande harpa do deserto, ao sibilo do pampeiro, e ao crpito do
raio, s a tinha o Juca, o brioso alazo.

Canho estava pois de volta.

Um calafrio percorreu o corpo da moa, que sublevou- se a meio para fugir espavorida,
mas caiu pesadamente como um fardo inerte, sobre o poial da janela.

Era com efeito Manuel que chegava. Atravessando rapidamente a vila, apeou- se 
porta da Fortunata. A casa parecia deserta; Lucas ainda no se recolhera da
perseguio ao chileno.

Percorrendo os aposentos, chegou o gacho ao quarto onde estava Cat ita, ainda
prostrada pela forte comoo. Ouvindo o tinir das chilenas de Canho, a moa fez um
esforo inaudito e levantou a cabea, mas sem erguer os olhos.

Manuel parara a alguns passos de distncia, partido entre duas emoes: o soobro de
ver a amante, e a surpresa dolorosa dessa recepo glacial.

-- Catita! balbuciou com a voz transida.

A moa cobriu as faces com as mos, para defend- las contra o olhar de Manuel,
enquanto seu peito martirizado estalava em um soluo convulso.

-- Ah!

No foi uma exclamao; mas um rugido bravio que rompeu do peito do gacho, por
entre os lbios cobertos de uma espuma sangrenta.

Ou porque a mesma veemncia da aflio brandisse as fibras de sua alma, ou porque a
vergonha daquela humilhao reagisse em seu corao contra o rem orso, Catita por
sbita transformao ergueu a fronte selada com uma calma impassvel. Sua voz era
firme, embora spera como o ranger do vidro:

-- Jurei que lhe pertenceria, Manuel: acreditava que lhe queria bem. Enganei- me; o
homem que eu devia amar, era outro. Me perdoe; esquea- se de mim que no
merecia ser sua mulher.




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Manuel ouvia o borborinho destas palavras; e sentia que lhe caam, a uma e uma,
dentro d'alma, como o granizo gelado que durante o inverno peneira sobre a
campanha, e mata a semente no seio da terra.

 porta assomou a figura de Lucas Fernandes. Avistando- se, os dois coraes, feridos
pelo mesmo golpe, se lanaram um ao outro, como para se ampararem mutuamente
contra o infortnio:

-- Desonrado, Manuel! exclamou o pai, apertando em seus braos o gacho.

Este no proferiu palavra; mas nas profundezas d'alma repercutiu o grito que ele
conseguira sufocar nos lbios; e no semblante derramou- se todo o fel, que lhe
extravasava do corao.

Lucas viu essa expresso de uma dor imensa: e arrancando a faca da cinta do Canho
arrojou- se para a filha. No primeiro assomo Catita empalideceu, mas recobrando- se
apresentou ao pai o seio para que ele o ferisse.

Durante esta cena rpida e muda, Manuel no se movera. Ele no se julgava com
direito de deter a mo do pai que vingava sua honra; e no fundo d'alma talvez
desejasse antes ver morta a mulher que amara, do que transformada em um ente
desprezvel.

Uma vertigem passou pelos olhos de Lucas, e a faca lhe resvalou da mo inerte. Canho
o arrastou para fora.

Passada aquela grande comoo, o pai contou ao amante, no meio de blateraes de
furor e soluos de clera, a cena que na vspera ocorrera e as informaes que lhe
dera Flix, a respeito dos acontecimentos; bem como a diligncia intil que tinham
empregado para apanhar o chileno. Manuel escutava em silncio. Seus lbios pareciam
selados como um tmulo. A serenidade das grandes cleras da natureza enquanto se
no desencadeiam, derramava- se em sua fisionomia, que parecia embutida em
mscara de ao.

Um piquete tinha pa rado na rua; a alta estatura de Bento Gonalves assomou na
porta.

-- J de volta, Manuel? disse ele dirigindo-se ao gacho.

Este permaneceu imvel sem dar o menor sinal de ter ouvido o coronel e se
apercebido de sua chegada.

Bento Gonalves surpreso daquela atonia voltou- se para as outras pessoas presentes
interrogando-as com o olhar. Lucas abaixou a cabea. Foi a Fortunata que referiu o
que havia ocorrido.

O coronel aproximou- se de Canho e apertou- o nos braos com efuso, procurando em
sua alma uma palavra de consolo para to grande dor.




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-- Vem; teremos combate esta noite!

Despertado por aquela voz generosa, Manuel compreendeu o pensamento do
guerreiro; mas um triste sorriso fugiu- lhe dos lbios. Tomando a mo do coronel a
imps sobre o corao, como se quisesse exprimir com aquele movimento que o tinha
j morto e extinto. Depois, entregando a carta de Rosas a Bento Gonalves, apartou-
se lentamente.




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VII - O PINHEIRO

A essa hora corria D. Romero  rdea solta pela campanha.

Evadindo- se de casa da Fortunata pelo telhado, o chileno ganhou rapidamente um
mata- pasto que havia por detrs da matriz, e no qual, por precauo, ocultara ele seu
cavalo, deitando- lhe uma focinheira de couro para impedir que rinchasse.

O mascate era um aventureiro prudente e sagaz. Embora a empresa no parecesse
oferecer o menor risco, ele sabia por longa experincia que de repente surgem
complicaes imprevistas. Por isso era seu costume trazer sempre as armas na cinta e
o cavalo ao alcance da mo.

Foi sua salvao. Se no tivesse to pronta a fuga, infalivelmente cairia nas mos dos
pees que o perseguiam, dirigidos e instigados por Lucas e Flix. Assim mesmo, antes
que pudesse apanhar o cavalo foi atacado por trs que o seguiam mais de perto.
Conhecendo que sua salvao dependia de um ato de desespero, o chileno investiu
com fria contra os agressores, desfechando- lhes repetidos golpes de espada, e dois
tiros de pistola que os feriram e atordoaram.

Aproveitando-se desse momento de vacilao pde ele saltar no cavalo e desaparecer.
Quando Lucas chegou ao lugar, nem mais se ouvia o estrupido do galope.

Vendo- se fora da vila, antes que o furriel montasse a cavalo para persegui-lo, Romero,
que at ento no tivera outro pensamento seno fugir, tratou de orientar-se no meio
da campanha e seguiu no rumo do oriente.

O chileno tinha- se dirigido para aquele lado da provncia com inteno de percorrer as
vilas e povoados do serto at Cruz Alta. Da se ainda fosse tempo de ir  feira de
Sorocaba, se passaria a Curitiba com os marchantes e invernistas; seno entraria na
Confederao por So Borja.

Como a ningum comunicara sua inteno, pensou que podia seguir com segurana a
rota j traada. Esperava alcanar no dia seguinte a Encruzilhada, donde mandaria
buscar sua bagagem, que ficara na locanda.

O sol transmontava.

D. Romero, tendo corrido durante o resto da noite e boa parte da manh, descansara
algumas horas em um rancho, e continuava agora a jornada mais tranqilo. Montava
outro animal; o castanho galopava ao lado.

Embalava- se o chileno nas recordaes de sua aventura, quando o animal deu sinal de
inquietao, copando as orelhas para trs e insuflando as narinas. O cavaleiro voltou-
se, e em toda a extenso que abrangia seu olhar do algo da coxilha, nada avistou.

Mas o inquieto animal resfolgava esforando por tomar o freio. Romero pensou que
fosse a vizinhana de alguma ona das matas de Canguu; pouco disposto a perder o
tempo com essa caa, soltou as rdeas e deixou o cavalo disparar. s vezes parecia-



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lhe ouvir longe um surdo estrpito, como o do mar batendo na praia do Albardo; mas
esse rumor passava com a lufada.

Entretanto o cavalo redobrava de velocidade, e parecia sentir a aproximao do perigo.

Afinal convenceu- se o chileno que no se enganava; e voltando- se descobriu longe um
ponto negro, como a asa de uma guia que rasasse pela terra. Era a vingana que
voava sobre ele; tal foi o pressentimento que cerrou o corao do fugitivo.

O vulto crescia de momento a momento. Romero passou- se para o castanho, seu
destemido parelheiro, e debruado sob re o pescoo do animal confiou-lhe a sua
salvao. O brioso cavalo compreendeu o que o senhor esperava dele, e arrojou- se a
toda carreira.

Mas no era um homem: era um turbilho que o perseguia. Observando uma ltima
vez, viu o fugitivo destacar-se perfeitamente do alto da colina, no azul do cu, o vulto
sinistro do Canho. Juca, sentindo que fora reconhecido, e j no tinha necessidade de
emudecer, soltou o nitrido.

A vasta solido, como uma lmina imensa de bronze, percutida pelo raio, vibrou
aquele grito estridente, cujos ecos, reboando no espao, se propagaram ao longe pelo
ermo.

O chileno sentiu gelar- se o corao; entretanto esse homem era bravo e muitas vezes
na sua vida afrontara o perigo com o sorriso nos lbios. Mas o gacho lhe inspirava
misterioso terror; desde o primeiro dia em que o viu, sentira essa obsesso
inexplicvel.

Certo de que sua hora aproximava- se, o fugitivo contava os instantes pelo tropel do
alazo que se aproximava com rapidez espantosa. J ouvia- lhe o ornejo, terrvel como
o surdo rugir do tigre; e armava as pistolas para fazer face ao inimigo.

Nisto assomou- lhe pela frente,  distncia de duzentas braas, um troo de cavaleiros.

Nas situaes desesperadas, uma interveno estranha desperta sempre a esperana.
O chileno lembrou- se que podia ser uma partida de legalistas; e nesse caso estaria
salvo.

A revoluo j havia triunfado em toda a provncia. O marechal Barreto e o tenente-
coronel Silva Tavares se tinham refugiado no Estado Oriental com os destroos das
foras do governo.

Mas a presena do novo presidente Arajo Ribeiro reanimara a resistncia. Alguns
chefes legalistas, como o coronel Albano, o major Marques e outros, se empenhavam
em levantar gente. J o capito Procpio,  frente de 500 homens, batera os rebeldes
e os expulsara do distrito do Rio Grande at So Gonalo.




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A estrela do chileno no o tinha abandonado. Era justamente uma partida que ia
reunir- se ao coronel Albano na Encruzilhada. Bastou ao fugitivo uma palavra para ser
bem recebido.

-- Os rebeldes me perseguem!

-- Aonde? perguntaram vinte vozes.

Romero voltou- se. O Canho tinha desaparecido. Ainda os legalistas bateram os
arredores por algum tempo; mas aproximando- se a noite, dirigiram- se  povoao.

Na Encruzilhada, Romero, que levava a bolsa bem fornida, ajustou seis capangas
destemidos para o acompanharem; despachando um portador para avisar os seus
camaradas do lugar onde o deviam encontrar, partiu para Rio Pardo.

Estava ele h quatro dias nessa vila, esperando pela bagagem. Arranchara-se na casa
de um lojista, seu conhecido de outras vezes que por ali passara. Ali se julgava seguro,
mas por precauo no saa  rua seno guardado pelos camaradas.

Ao lado morava uma antiga apaixonada em quem ele procurava soprar a chama
extinta. Lembrada da facilidade com que o taful se desprendera de seus laos, a moa
andava arisca; mas afinal, depois de muito rogada, prometeu esperar o namorado na
janela, ao toque de recolher.

Era noite h muito, e noite escura. D. Romero deixou que seus inseparveis capangas
se acomodassem; e ganhando a sala conchegou- se  janela do canto, que ficava
encostada  casa vizinha. Os dois sobrados eram da mesma altura, e ambos tinham
janelas de balco, de modo que os amantes debruados podiam quase tocar- se.

Estava a rua completamente deserta. Uma sombra apareceu na janela prxima.

-- Amor, sua me j dorme?

-- Para qu?

-- Para conversarmos mais perto?

-- Cuida que eu j esqueci?

-- Ingrata! Assim me paga as saudades que curti ausente dela!

-- Eu no acredito!

-- Quem me trouxe a Rio Pardo? No foram esses lindos olhos que de longe me
arrastam, e de perto me repelem?

-- Ai!




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Soltando um gritozinho de susto, a moa retrara- se para dentro.

-- Que ? perguntou o chileno.

-- No ouviu, ali defronte?

Em face havia o muro em runas de um quintal abandonado. Malvas silvestres e
arbustos cobertos de abboras formavam uma vegetao luxuriosa que estofava as
brechas do valo junto do qual se elevava um pinheiro.

-- Foi o vento, disse o chileno.

-- Vi uma pessoa em cima do muro.

-- Ora! Havia de ser o pinheiro! replicou o chileno rindo-se.

-- Tive um susto!... suspirou a moa esquivando- se.

Romero aproveitou o ensejo para escalar a grade, a fim de passar ao balco vizinho.

-- Espere!

A moa foi at ao meio da sala para assegurar-se de que todos dormiam, mas no
teve tempo. Um grito cortado atravessara o espao. Arrastando- se  janela, trmula e
fora de si, apenas vira um vulto que perpassou no ar e sumiu- se. Era porventura o
arremesso de algum abutre, que soltara o pio lgubre, caindo sobre a presa?

O chileno tinha desaparecido.

Todos os esforos dos capangas, acordados em sobressalto, foram inteis para
descobri-lo.




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VIII - A FACA

Embora seja domingo, as ruas de Piratinim esto desertas. Os habitantes recolheram-
se fugindo aos raios abrasadores do sol.

Faz um calor de sufocar.

O cu tem o lvido azul de uma lmina de ao. Algumas nuvens brancas e densas que
surgem no horizonte parecem estanhadas na atmosfera pesada e baa.

A trechos passa uma lufada ardente, como o bafo de uma fornalha. Lnguidas e
flcidas pendem as folhas das rvores, crestadas por esse respiro do deserto. Os
pssaros emudecem; o gado bufa, e toda a natureza anseia como opressa por uma
angstia inexprimvel.

Os pees, vaqueanos da campanha, pressentem a aproximao do pampeiro.

A essa hora, Lucas, presa de viva inquietao, percorria de uma extremidade  outra o
corredor da casa. Quando passava pelo quarto da filha, insensivelmente abafava os
passos, e escutava na porta, com a sofreguido de perceber qualquer rumor. Chegado
 entrada da varanda, onde terminava o corredor, parava um instante e deitava um
olhar oblquo  Maria dos Prazeres, que estava no canto habitual da janela, a cochichar
com a cunhada.

Depois de uma pausa, em que se manifestava bem claramente a oscilao de seu
esprito entres os sentimentos encontrados que o agitavam, continuava o interrompido
passeio.

O furriel tinha envelhecido anos nesses poucos dias, decorridos depois da fuga do
chileno. Essa tenacidade que nenhum revs abatera nunca, antes carecia da luta e do
perigo para no consumir- se, no pde resistir ao golpe que sofrera com a desgraa da
filha.

Fora ferido na honra, que  o cerne da raa gacha, altiva e cavalheiresca. O
extermnio da famlia inteira no o esmagaria, como a vergonha atirada  sua face e
na pessoa da filha a quem ele adorava.

O corpo direito e inflexvel do furriel vergou ao peso daquela desgraa; os pesares
sulcaram seu rosto abrindo rugas profundas; at a voz estrepitosa que no formidvel
diapaso parecia condensar todas as energias dessa organizao, mostrava ter- se
espedaado no grito da dor, e se tornara rouca e surda.

Desde a noite fatal, Lucas evitava de encontrar- se com a filha, a qual por seu lado,
sentindo a famlia retrair- se, se refugiara nessa esquivana, para entregar-se
completamente a seu infortnio.

Naquele dia, porm, o amor do pai, at ento subjugado pelo pundonor do soldado,
reagiu. O furriel pensou que a filha tambm sofria, e teve pena dela. Ao mesmo tempo
uma idia sinistra relanceou em seu esprito.



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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                        Pg. 91 de 107


Lembrou- se que no momento de sua alucinao, quando se arrojara sobre Catita para
traspassar- lhe o corao, a faca do Canho, caindo no cho, se escondera sob a fmbria
do vestido, e ali ficara. Atravs do horror que ainda lhe inspirava aquele mpeto
homicida, ele via o olhar morno da moa fito na ponta do ferro; e o sorriso de escrnio
com que ela parecia despedir- se da existncia.

Muitos dias tinham passado depois daquele acontecimento; e era natural que o tempo
houvesse apagado no esprito da moa qualquer pensamento funesto. Todavia o furriel
estava inquieto e a custo continha sua impacincia.

No se animando a bater  porta do quarto e chamar Catita, adiantava- se disposto a
informar-se com Maria dos Prazeres do que fazia a filha. Mas o pudor de seu profundo
ressentimento o tolhia, receoso de mostrar- se fraco diante da mulher e da irm.

Afinal, no pde resistir, e avanou at ao meio da varanda.

-- Onde est ela? disse com voz soturna.

-- L no quarto, respondeu a mulher.

-- Fazendo o qu?

-- Chorando. Que mais? tornou a Maria dos Prazeres levantando os ombros.

-- E... e a faca?

-- Que faca, Sr. Lucas?

O furriel ps os olhos na mulher, surpreso de que ela no o compreendesse, e afastou-
se logo sem responder.

-- Sabe, comadre; o homem no anda bom, no! Depois dessa desgraa, parece que
lhe virou o miolo.

-- No  para menos! acrescentou a Fortunata.

O pressentimento de Lucas no o enganava; o perigo que pressagiava seu corao de
pai era real.

Catita, sentada no seu quarto, contemplava justamente a faca do Canho, esquecida a
um canto desde o dia em que seu pai a am eaara. Naquela manh, no meio das tristes
cogitaes que a assaltavam de novo, seu olhar percebera na sombra a cintilao do
ao.

Foi o luzir de uma esperana.

De que lhe servia a ela a vida seno de sofrimento e vergonha? O assomo de orgulho
que no primeiro instante a excitara a ponto de considerar a sua desgraa como uma



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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                        Pg. 92 de 107


glorificao do amor, abateu- se. O homem por quem se perdera, aparecia-lhe agora
no seu verdadeiro aspecto, como um sedutor vulgar.

Ao mesmo tempo, pensava que sua falta a tornara um suplcio constante, seno um
oprbrio, para aqueles que mais a queriam. Viva, eles a desprezavam; morta, haviam
de chor- la e, quem sabe, talvez lhe perdoassem.

Sua conscincia como um juiz severo a condenou, e ela aceitou consolada essa
expiao, que seria o termo de seu martrio. Resolvida a realizar imediatamente seu
pensamento, ajoelhou-se diante de um registro de Nossa Senhora. Sua orao foi
breve; ela sentia a impacincia do desespero.

Apanhando a faca, apalpou o lindo seio para dirigir o golpe pela palpitao, e
atravessar logo o corao. Apoiou o ferro na ombreira da janela e se atirou sobre, para
cravar nele o peito.

Mas estacou trmula.

Ouvira o relincho argentino, que outrora lhe anunciava a chegada de Manuel. Absorta
na emoo daquele acontecimento, e numa vaga expectao, ficou a moa por muito
tempo imvel, na mesma posio em que a surpreendera o incidente.

Um sorriso de jbilo despontara em seu lindo semblante fanado pelas lgrimas. Por
que voltava Manuel, a quem no esperava mais ver? Ela sabia que o gacho s tinha
em Piratinim uma coisa que o prendesse: era seu amor.

Como o frouxo vislumbre de uma alvorada que se desprende a custo das sombras da
noite e de repente some - se no seio da procela, assim desvaneceu- se o sorriso nos
lbios da moa.

-- No! balbuciou. Ele no pode mais amar- me!... Nem eu a ele...

De novo seus olhos se embeberam no espelho da lmina de ao, e sua alma refugiou-
se na idia de morrer.

-- Se ele quisesse matar- me!

Nesse momento bateram com fora  porta. A moa conheceu a voz de seu pai, que
dizia:

-- Abre, Catita!

Depois de um instante de hesitao em que a moa perscrutou debalde a razo desse
chamado do pai, e da sofreguido alegre que denunciava sua voz, ela ocultou a faca
embaixo do travesseiro da cama e abriu a porta.

Lucas entrou de um mpeto, e travando das mos da filha, disse- lhe aodado:




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

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-- Ele est a! Veio para se casar contigo! Assim  como se nada tivesse acontecido!...
No vs como eu choro de alegria?... H de ser hoje mesmo, agora, neste instante. J
se mandou avisar o padre. Vai te vestir. No te demores.

Catita ouvia o pai de surpresa em surpresa. As palavras de Lucas a arrebatavam a tal
ponto  realidade de sua triste posio, que ela no se animava a interromp- lo para
pedir- lhe uma explicao, temendo que a iluso se desvanecesse, e sua alma fosse de
novo precipitada no desespero.

Foi quando seu pai terminou, que lhe escapou dos lbios essa exclamao:

-- Ento ele ainda me quer?

-- Pois duvidas?

-- Depois do que houve?

-- Por isso mesmo!... Anda, veste-te.

Desta vez a mo a pensou enlouquecer. Lucas saiu deixando-a naquele pasmo de uma
angstia cruel.




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                          Pg. 94 de 107


IX - O LAO

Afastando- se de Bento Gonalves no dia de sua volta a Piratinim e depois da cena
cruel que se passou no quarto de Catita, entre o pai e a filha, Manuel se dirigira 
locanda onde tinha arranchado o chileno.

Examinando o cho em torno da casa, notou o rasto de um animal que ele reconheceu
imediatamente, apesar de o ter visto poucas vezes. Uma coisa que o peo observa
logo no cavalo  o andar; de duas vezes que encontrara o chileno a gauchar no
castanho, lanou Manuel um rpido olhar ao animal. No foi preciso mais.

O rasto seguia ao longo da rua; apesar de apagado pelo casco de outros animais e
pelas pisadas da gente a p, o gacho foi acompanhando aqueles vestgios, at o
campo que servia de rocio  vila. A a pista, perfeitamente distinta e fazendo uma
volta, dirigia-se ao mata- pasto por detrs da matriz, donde se afastava pela campanha
fora.

Quando Canho se curvava para melhor examinar o rasto, Juca e a Morena o
acompanhavam reparando nos seus movimentos e farejando o cho. Ao sair da vila, os
dois animais conheciam a pista to bem como o gacho, e podiam segui- la a galope.

Romero levava seis horas de avano; porm Manuel tinha os dois melhores parelheiros
de toda a campanha e a sua atividade infatigvel.

Ao cair da tarde ele avistou longe no horizonte o fugitivo; e com pouco mais o teria
alcanado, se no fosse a interveno da peonada do coronel Albano. Tendo avistado a
partida antes do chileno e suspeitando que fosse de legalistas, Manuel previu o que ia
acontecer.

Encoberto pelo esteiro de mato que bordava as margens de um arroio, o gacho
contornou a lomba de uma grande coxilha, ganhando a frente aos legalistas. Assim
quando estes batiam a campanha na direo de Piratinim  caa do farroupilha, este,
oculto em um pequeno cerro do lado da Encruzilhada, observava seus movimentos.

Desde ento Manuel no perdeu mais de vista a Romero. Com a pacincia de um
caador, espreitando a ocasio segura para desfechar o bote, o seguiu at Rio Pardo.

Defronte da casa do lojista, onde se aboletara o chileno, havia aquele pardieiro coberto
de uma vegetao espessa e frondosa, que pelo fundo se unia com o mato da entrada
da vila. Ali oculto, Manuel passava o tempo a espiar os mo vimentos de Romero.

O mascate pouco saa, e sempre acompanhado pelos seus capangas. Em casa era raro
chegar  janela, isso mesmo com muita precauo. Embora se julgasse escapo da
perseguio, tinha a prudncia de no se expor.

Canho contava que essa incessante cautela se desvaneceria com o tempo, sobretudo
em alma to ftil e inconstante como a de Romero. No se enganou: na quinta noite
um recado da vizinha fez- lhe esquecer tudo o mais.




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Quando Manuel, de p sobre o muro, alcanava o tronco do pinheiro a fim de subir 
copa, a moa o avistara, mas de relance apenas; tanto que Romero volvendo os olhos
no viu mais do que o esguio tronco de rvore.

Oculto entre a rama dos galhos, esperou at o momento em que o chileno subiu 
sacada para alcanar a janela vizinha. Ento o brao projetou- se; o lao arremessado
com fora apanhara o namorado pela cintura, semelhante  garra fatal e invisvel de
um grifo que o arrebatasse pelos ares.

Ao mesmo tempo que atirara o lao, Manuel se arrojara ao cho; de modo que a
trana de couro correndo na forqueta de um galho,  guisa de cabo, suspendeu
Romero sobre o pardieiro, sem que o corpo arrastasse pela rua.

Atirar- se ao mascate, amorda-lo com o poncho, ligar-lhe ps e mos, at- lo ao
costado do Ruo, e partir levando consigo o prisioneiro, no gastou ao Canho o
momento que durou a surpresa do chileno. Quando este deu acordo de si, galopava
pela campanha em posio horizontal.

s oito horas da manh parou Canho para dar repouso aos animais e almoar.

O gacho encostou Romero, sempre atado de ps e mos, ao tronco do ombu, que
oferecia aos viajantes uma sombra refrigerante. Correndo o campo laou uma vitela, e
sem dar-se ao trabalho de mat-la, tirou-lhe da ilharga um pedao de lombo. Instante
depois a carne assava no tampo de couro, que o calor do fogo, encolhera, tornando-o
covo como uma panela.

Manuel soltou os braos do chileno, atirou- lhe com sua rao de carne, e tratou de
tomar a sua parte da refeio.

Desde que tinha cado nas mos do gacho, Romero ainda no lhe ouvira uma s
palavra. Manuel o tratava como ao novilho fujo que se laa no campo e se leva  soga
para o curral. No se dignava nem mesmo amea-lo com um gesto. E para qu?
Aquele torvo semblante era a fisionomia de uma tempestade; sentia- se a fasca do raio
no olhar lvido que rutilava da pupila negra.

Quando Romero deu acordo de si, admirou- se de estar vivo ainda. Que pretendia dele
ento o Canho? Queria entreg- lo a Lucas ou mat-lo aos olhos de Catita?

Enquanto comiam os dois viajantes, um homem arrastando- se pelo cho por entre a
macega, se aproximava sorrateiramente do ombu. Pelo emplastro de pano que trazia
no rosto era fcil conhecer Flix.

Chegando a duas braas do tronco, parou indeciso. Ali estavam dois homens a quem
ele votava dio mortal: um lhe tinha mutilado o rosto, o outro lhe mutilara a alma;
aquele o fizera hediondo, este o transformara em fera; ele tinha sede de sangue, mas
como o tigre, de sangue quente, bebido no corao donde borbota.

Flix andara at aquele dia  pista do chileno, e voltava desesperado quando de longe
avistou Juca e logo pressentiu que Manuel andava por perto. Descobrindo os dois



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viajantes, no se imagina a raiva que sentiu por ver o gacho senhor da vingana, to
cobiada por ele.

Afinal decidiu- se o rapaz; apontando o trabuco para Manuel, armou a caoleta; mas o
rangir do ferro ainda soava, quando o gacho, a quem nada escapara, caiu sobre ele e
arrancou- lhe a arma da mo.

Flix enfurecido precipitou- se sobre o chileno para cravar- lhe a faca no corao; mas
achou- se em face de Manuel que ao cabo de breve luta o desarmou.

-- Mata-me de uma vez, demnio! gritou o rapaz em um acesso de raiva; ou antes
acaba logo de matar- me, pois j comeaste. Olha, o que fizeste de mim.

Arrancando o pacho que lhe cobria o rosto, o desgraado mostrou uma coisa horrvel;
um rosto fendido a meio, que parecia rir satanicamente com os lbios disformes
daquela boca artificial.

Manuel sentiu um movimento de compaixo, que logo sopitou. Impassvel e taciturno,
passou do rosto mutilado do rapaz ao semblante de Romero um olhar frio que transia.
O chileno estremeceu de horror ante aquela ameaa.

Entretanto o gacho atou- lhe de novo os braos e pondo- o no costado do Ruo partiu,
apesar da sanha de Flix que, vendo sua vingana prxima a escapar-lhe, arrojou- se
ainda uma vez contra o gacho, procurando ao menos insult- lo para que ele o
matasse. Baldado esforo; porque o brao gil e robusto de seu adversrio o
conservava em distncia.

Horas depois paravam dois cavaleiros  casa de Fortunata. Lucas chegando  porta
reconheceu com surpresa Manuel e Romero a quem o gacho soltara os laos na
entrada da vila.

A um volver d'olhos do Canhis que partira:

-- A noiva.

Como se um raio de luz rompesse a crosta dessa alma, o pai compreendeu tudo e
correu ao quarto da filha.




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X - A BODA

H almas de esponja, que o menor revs espreme; mas tambm o menor bochecho
d'gua basta para inch- las.

Romero tinha uma dessas almas. Aniquilado pela ameaa que pesava sobre ele,
apenas compreendeu o desgnio de Manuel ps- se ao nvel da posio criada pelos
acontecimentos. Aceitou portanto o papel de noivo, com boa graa e rosto alegre.

Logo ocorreu-lhe que no estava em traje de cerimnia; e comunicou este pensamento
a Maria dos Prazeres, a qual achou- lhe toda a razo, pois no concebia que um homem
se casasse com roupa do dirio e amarrotada.

Sabendo que sua bagagem ainda estava em Piratinim, dirigiu- se Romero  locanda,
acompanhado por Manuel; enquanto Lucas ia apressar o padre coadjutor, e convidar a
melhor gente da vila. A notcia do repentino casamento no produziu grande surpresa;
todos achavam natural a reparao; e estimavam concorrer para a alegria da boda,
que no era somente a festa da ventura, mas sobretudo a festa da honra.

Trajado a primor, D. Romero tornou  casa de Fortunata, que j estava cheia de moas
e rapazes ansiosos de verem a noiva.

Esta no se fez esperar.

Catita vinha resplandecente de beleza. Coroava- lhe a fronte a aurola de jbilo celeste
que devia cingir as virgens mrtires expirando em um xtase de bem   -aventurana.
Havia em seu rosto a expresso vaga e indefinvel que resta, quando a alma se
desprende da terra para remontar ao cu.

Depois que Lucas a deixara debatendo- se em uma incerteza cruel, a moa julgou
compreender o sentido das ltimas palavras de seu pai. Manuel queria sacrificar- se
para salv- la: ela no devia aceitar o sacrifcio; mas no tinha nimo de recus-lo.
Esse amor ardente e generoso era uma bno que a purificava.

-- Ser dele e morrer! balbuciou.

E vestiu-se com suas roupas mais garridas.

Assomando  porta com a fronte baixa, no viu nenhuma das pessoas ali reunidas na
sala. S passado o primeiro vexame, coando a medo o olhar entre os clios, procurou
Manuel; mas quem encontrou foi D. Romero que lhe ofereceu a mo sorrindo com
faceirice e requebrando o talho gentil, realado pelo rico traje.

-- Seorita! dizia ele fazendo uma mesura.

A moa teve uma vertigem. Sua alma arrebatada violentamente ao corpo hirto
submergiu- se em um abismo de vergonha e dor. Desde ento ela no teve mais
conscincia de si. O chileno tomou- lhe a mo fria como gelo e a conduziu sem a
mnima resistncia.



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Durante essa cena rpida, Manuel de p, a um canto do aposento, parecia de todo
estranho ao que passava. O olhar frio e bao, fito no chileno, era o nico vnculo que
prendia essa conscincia  vida externa.

Mudo como uma sombra, sinistro como uma apario, fazia lembrar o esprito satnico
das lendas da mdia idade, esperando o momento de arrebatar ao inferno a alma do
precito.

                                                a
O vestido de Catita roou- o e ele no a viu. Um nuvem densa ocultava- lhe tudo
quanto no era aquele homem, cuja passagem deixara em sua vida o rastro da
fatalidade.

O acompanhamento seguiu para a matriz que regurgitava de gente. J o sacristo
acendera os crios do primeiro altar da epstola, e o coadjutor, de roquete, descia os
degraus da capela- mor.

A cerimnia foi breve. No momento de pronunciar as palavras que deviam ligar para
sempre sua existncia  dessa moa a quem seduzira, o chileno hesitou, volvendo
automaticamente a vista em torno, como se procurasse um ponto de apoio a seu
esprito perplexo; mas encontrou o olhar de Manuel, e curvou a cabea.

Momentos depois os noivos entraram na casa, que uma festa improvisada havia
transformado durante a cerimnia, adornando-a com ramos de flores, palmas de
coqueiros e lanternas de copos pintados.

O sol acabava de esconder-se no horizonte; flocos de vapores cor de fogo se erguiam
                                -
lentamente no ar e condensavam se na atmosfera. Os arrebis do ocaso tinham listras
rbidas que pareciam laivos de sangue. A brisa do crepsculo, de ordinrio fresca e
embalsamada com o hlito das flores, vinha impregnada de slfur e exalava um sopro
morno.

Fazendo honra ao banquete, os convidados no se apercebiam desses pressgios do
prximo temporal; nem ouviam os mugidos dolentes do gado carpindo o morrer do
dia.

A funo durou at meia - noite e foi muito divertida. D. Romero nadava em prazer; a
nica sombra que podia anuiar o seu horizonte, era a torva fisionomia de Canho, e
esta havia desaparecido desde o comeo da festa.

J todos os convidados se despediram, repetindo ainda uma vez os parabns, e
fazendo votos pela felicidade dos noivos. A casa repousa em silncio, apenas
interrompido pelo eco da tirana, que ainda ressoa ao longe de algum peo saudoso da
festa.

Catita, sentada no seu quarto com as mos cruzadas sobre os joelhos, o busto vergado
como o clix de uma flor cheia de orvalhos, e os olhos cravados no cho, perdia- se em
um plago de dor. A msera no sabia qual era maior vergonha e suplcio para ela: se
a falta passada, se a reparao tardia. Antes tinha ela o direito de desprezar o homem




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que abusara de sua inocncia; agora esse homem era seu esposo; ela o recebera de
Deus, aos ps do altar, como o companheiro de sua existncia.

Entretanto Romero entregue a pensamentos m     uito diversos, contemplava sua noiva
com volpia. Nunca a vira to bela, como naquela atitude de mrbida languidez, que
punha em relevo os contornos suaves do talhe. Nesse momento esquecia quanto
ocorrera nos ltimos dias para lembrar- se unicamente que a linda moa era sua noiva.

                            -
Quando seus olhos saciaram se da imagem sedutora, o chileno aproximou-se: um
calafrio percorreu o corpo de Catita, que estremeceu sentindo em sua mo o contato
dos dedos do marido.

-- Querida!... murmurou Romero.

-- Deixe- me! suplicou a moa.

-- No seja m! Tenha pena do que sofri nestes dias de ausncia; se no me
lembrasse de sua felicidade, cuida que daria ao trabalho de fugir e defender- me?
Deixava que me matassem logo; mas eu sabia que no me matavam a mim
unicamente! Diga, tantas saudades curtidas longe daqui no valem um beijo, um s?

Pronunciando estas palavras, o chileno cingiu com o brao o talhe da noiva,
procurando estreit- la ao peito; porm ela, estrincando o corpo como uma serpe,
escapou-se daquele abrao que lhe causava horror, e refugiou- se em um canto do
aposento.

-- Nunca! tinha ela exclamado com veemncia.

E o lbio erriado pela ira e pelo terror, depois que arremessou essa palavra
impetuosa, ficou vibrando como a lmina sonora de um estilete percutida com fora.

Essa energia e sbita resistncia surpreenderam um momento ao chileno, que
respondeu com um motejo.

-- Por que me quer tanto mal assim, muchacha?  por que sou agora seu marido?

Catita compreendeu o sarcasmo.

--  por ser meu marido, sim, que eu lhe tenho horror. At ontem o senhor no foi
mais do que a minha desgraa: eu podia perdoar- lhe e esquecer. Hoje  a minha
vergonha! Antes me queria amarrada na forca, do que unida ao mais vil dos homens.

A moa abatida com o estupor que lhe causara a presena de Romero, se tinha
deixado arrastar quele casamento; mas agora na solido de seu aposento, ameaada
pelas carcias do ente desprezvel, sua alma reagia contra o oprbrio dessa cruel
situao.

                                                                           or
-- Serei tudo que voc quiser, Catita; mas o meu crime qual foi, seno o am cego
que lhe tenho?


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-- Seu amor seria para mim um insulto!

-- Lembre - se que j fui bem castigado com o receio de perd- la para sempre. No
acha que mereo seu perdo? Eu suplico de joelhos.

Romero caminhava para a moa, que recuou horrorizada at o leito. A no desespero
de se ver sem defesa,  merc daquele homem, que era seu marido, acudiu- lhe uma
lembrana. Metendo a mo trmula por baixo do colcho apalpou o cabo da faca de
Manuel.

Entretanto Romero aproximando- se passara o brao pelo colo da noiva, e inclinou- se
para beij - la. Catita retraiu-se violentamente, e o ferro grilhou em sua mo. Ouviu- se
um grito de aflio.

A faca rolou pelo cho, ao tempo que a moa caa desmaiada sobre o leito. Faltaram-
lhe as foras pensando que j o corao de Romero estava traspassado pelo ferro;
quando este apenas cortara as roupas e arranhara a epiderme.

O chileno sorriu vendo a moa inanimada. Esse amor travado de dio, a luta violenta
que prostrara aquela mulher, o excitavam.

-- Agora  minha!

Nesse momento algum travou- lhe do punho. Era Manuel.




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XI - PRANTO

Pouco falta para a madrugada.

A noite arrasta- se pesada e lgubre no meio de uma calma assustadora, que estranha
a natureza. Nem um sopro de aragem bafeja a terra, encandecida ainda pelo intenso
calor do sol. As estrelas rubras e imersas em um limbo escuro, parecem tochas a
bruxulear na sombra de um templo forrado de crepe. No horizonte opaco se debuxam
as cpulas das rvores, semelhantes a massas de granito.

Essa estagnao de luz, de ar e vida, imprimia  natureza uma imobilidade medonha;
dir- se- ia o orgasmo que precede  convulso e ao delrio.

Dois vultos passaram. Caminhavam rapidamente ao lado um do outro, e dirigiram- se a
um ermo bronco e erriado de fraguedos que ficava nas abas da vila. Quem os visse de
longe a par como camaradas de prazer e ventura, no suspeitaria decerto que iam
matar- se.

A algumas braas de distncia seguiam dois animais a passo. Eram Juca e a Morena
que de longe acompanhavam o senhor; como se pressentissem a desgraa iminente,
eles to altivos sempre e to impetuosos, caminhavam tristes e cabisbaixos, pisando
sutilmente para no despertarem os ecos da noite.

Chegados a uma rech, que ficava entre uma charneca profunda e uma fraga
alcantilada, Manuel parou voltando- se para o companheiro, e enrolando no brao
esquerdo o seu poncho.

D. Romero tivera a cautela de armar-se e, bem disposto como estava a acabar de uma
vez com essa obsesso que sobre ele exercia o gacho desde a primeira vez, resolvera
matar esse homem, quebrando sua influncia malfica, ou sucumbir logo, morrendo s
suas mos.

Sem proferir palavra, sem trocar uma injria ou ameaa, os dois inimigos atacaram-se
com a faca em punho e com uma sanha terrvel. O chileno no era mais o rapaz
enervado pelos prazeres; o rancor percutindo as energias sopitadas dessa organizao,
tornara o casquilho de ontem um campeo formidvel.

Durante algum tempo no se ouviu mais do que o triscar do ferro quando as facas se
roavam, e o resfolgo da respirao. Mas afinal o chileno conhecendo que no podia
lutar contra o punho de ao do gacho, deu um salto para trs e ps- se fora do
alcance da faca.

Tirando ento da cintura as pistolas desfechou os dois tiros sobre o Canho. Uma das
balas embebeu- se nas rugas da bota; a outra, queimando os cabelos do gacho, bateu
contra o rochedo. Romero no teve tempo de ver o efeito dos tiros; antes que se
dissipasse a fumaa, Canho se precipitara sobre ele como um tigre, o arremessara ao
cho, e lhe calcara o p sobre o pescoo.




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                      Pg. 102 de 107


A estrangulao foi rpida. Uma crispao violenta percorreu o corpo do chileno, e
deixou- o j cadver.

Manuel em p, com os olhos no semblante do morto, teve uma cruel decepo. A
vingana terrvel, que devorava sua alma, ali estava sem pasto para saciar-se, diante
daquele mesquinho despojo. As ms paixes humanas tm a mesma natureza das
feras. O tigre sedento, que depois de percorrer a selva no acha para mitigar- lhe a
calma mais do que o resto de um reptil exangue, deve sentir aquele desespero.

O gacho empurrou com a ponta do p o cadver, que rolou pelo despenhadeiro; e
dirigiu- se ao lugar onde percebia os vultos de Juca e Morena, que tinham assistido
imveis  luta. O silncio e a espcie de estupor moral que se apoderara do Canho
desde o dia fatal da perdio de Catita, se comunicara a seus dois amigos e
companheiros. Eles trs no formavam mais do que uma alma, uma vontade, cujo foco
era o corao do gacho.

Se no estivesse to concentrado em si mesmo e abstrado do mundo exterior, ao
aproximar- se Manuel teria percebido uma sombra que se esgueirou por detrs da
folhagem de alguns arbustos.

A mo do gacho, encontrando os arreios nas costas da Morena, comeou
automaticamente a apertar a cincha, que  costume afrouxar enquanto o anima
descansa. Em meio desse movimento maquinal o esprito foi arrebatado por um
turbilho de pensamentos. A fronte derrubou- se, e um soluo rompeu do peito
arquejante. Pela primeira vez em sua vida aquele homem soube o que era o pranto, e
chorou como uma criana.

Nesse momento a mesma sombra que sumira-se pouco antes, assomou entre a
folhagem, indecisa se devia avanar ou retrair-se.

Entretanto Manuel, com a alma j desafogada daquela nsia que o sufocava, cingiu
nos braos o colo da Morena e do Juca, e estreitou-os fortemente ao peito; a voz que
desertara de seus lbios, balbuciou enfim algumas palavras truncadas pelo ofego:

-- Aqui estou, meus amigos! Fui ingrato; amei-a mais do que a vocs e ela me traiu,
me abandonou! Era mulher; sabia falar; havia de mentir. Oh! eu bem quis fugir-lhe, eu
                                    -
que desde menino aprendi a conhec las. Mas a fatalidade me arrastou.

A angstia sufocava- lhe a voz por instantes:

-- H quatro anos que vocs me acompanham e at hoje um s dia no cansou a
dedicao que tm por mim; tambm nunca me prometeram coisa alguma. Ela, jurou-
me seu amor e um ms depois era... uma desgraada!

Manuel esmagou as lgrimas que lhe saltavam dos olhos; e constringiu o seio para
sufocar- lhe o arquejo.

-- Fujamos deste mundo infame! Vamos ao deserto, onde o homem  fera como o
tigre. L ningum h de ser enganado pelo amigo e trado pela mulher. Cada um s



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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                      Pg. 103 de 107


conta consigo; se quer um irmo tem o seu cavalo fiel. Noiva, encontra- se no primeiro
rancho: de manh no se conhecia,  noite j esqueceu. Vamos, amigos, vamos aos
pampas! L, somente l, naquela imensidade, poderei matar esta sede que eu sinto
n'alma, esta sede de espao, que me sufoca. Correr!... Quero correr! correr sem parar,
correr sem fim, at que se abra o inferno para nos devorar!...

A sombra imvel resvalou. Sentindo que procuravam travar- lhe da mo, o gacho
voltou- se, e viu um vulto de mulher ajoelhada a seus ps.

-- Manuel!

Nesse momento o orbe imenso da lua assomava no horizonte como a boca da forja
que exala um fumo gneo. Seu rbido claro, desdobrando- se pelo ermo, debuxou o
semblante plido de Catita com os cabelos desgrenhados e a alucinao na fronte.

Manuel recuou transido de horror, voltando o rosto para subtrair-se  viso que o
perseguia.

-- Eu te suplico, Manuel! No me fujas, no me abandones neste desprezo que eu
sinto de mim mesma! Mata- me! Esmaga- me a teus ps, como uma coisa vil.
Abenoarei a morte, por mais cruel que seja, dada por ti.

Ofegante, despedaada pela dor, arrastou- se aos ps do gacho, rojando a fronte pelo
cho, e umedecendo com os soluos o p que seus cabelos levantavam.




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

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XII - O PAMPEIRO

Um rudo surdo reboou pelas grotas e algares que alcantilavam o cerro abrupto.
Parecia que a terra arquejava com o estertor de um pesadelo.

Ao mesmo tempo uma exalao ardente como o vapor de uma cratera derramou- se
pela solido. As feras uivavam longe na profundeza das selvas; e as aves espavoridas
passaram soltando pios lgubres. Os dois cavalos, com o plo eriado, resfolgavam
aquele bafo gneo, semelhante ao fumo de uma batalha; eles o conheciam: era o sopro
da ptria selvagem; era o flego do pampa.

De repente a lua sepultou- se. Cu e terra submergiram-se num oceano de trevas. O
aluvio das procelas se arremessara do horizonte e inundara a imensidade do espao.
Houve ento um momento de silncio pavoroso; era a angstia da natureza asfixiada
pela tormenta.

Afinal ribombou o trovo na vasta abbada negra, sobre a qual o relmpago despejava
cataratas de chamas. No era uma tempestade; mas um turbilho de tempestades,
bacantes em delrio, que tripudiavam no cu. Como os touros acossados pelo gacho
arremetem com fria e rompem a selva bramindo, assim o tropel das borrascas
disparava pelo espao.

O pampeiro, varrendo dos cimos dos Andes todas as tempestades que ali tinham
condensado os calores do estio, verberava na imensidade as pontas do ltego
formidvel com que ia aoitar o oceano.

Atnitos e mudos de espanto, os animais contemplavam o grande paroxismo da
natureza. A voz do trovo, o verbo das grandes cleras celestes, sopitava todos os
gritos e todos os rumores. A terra pvida e estupefata recebia a tremenda flagelao
no meio das gargalhadas satnicas do raio que surriava fustigando as escarpas do
rochedo.

nicos, no meio dessa horrvel subverso, aquele homem e aquela mulher no se
apercebiam dos furores da procela; dentro de suas almas lhes tumultuava outra
furiosa tormenta que as devastava com sanha mais terrvel que a do raio.

Abraada aos ps do gacho, Catita murmurava:

-- Nunca amei seno a ti, Manuel, eu juro. No digo isto para que me perdoes. No
mereo, no quero perdo. Mas v o que sofri, e estou sofrendo neste momento. Tu
foste trado; e eu que me tra a mim mesma?... Eu que me detesto mais do que tu
podes detestar a infeliz que te enganou?... Amar, e sentir- se indigna desse amor, no
h maior suplcio, Manuel!

A alma do Canho se crispava, semelhante ao msero que tomado de vertigem  beira
do precipcio se estorce e contrai para escapar  fascinao do abismo, e debalde
estende as mos convulsas em busca de algum frgil apoio. Com os olhos fitos no
semblante da moa, que os relmpagos cingiam de uma aurola fulmnea, a alma do
gacho se arrojava de novo nas torturas atrozes por que passara durante os ltimos



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dias, esperando assim subtrair- se  irresistvel atrao dessa mulher, a quem amava
ainda, mas com assomos de furor.

-- Manuel, por piedade, Manuel, no me fujas. Ouve! A mulher que tu amaste no
existe mais, morreu, ningum sabe dela. Esta que te fala, nunca a viste, no a
conheces;  uma desgraada que por acaso encontras em teu caminho e que te
implora de joelhos a esmola de uma palavra, de um olhar. No te pede seno
compaixo para este desespero com que te ama. Que te custa? Deixa- me seguir- te ao
deserto; quando minha presena te aborrecer um dia, atira- me, ou deixa- me no
rancho abandonado onde nunca mais voltars, mas onde eu ficarei te esperando
sempre at morrer consumida pela doce esperana.

Durante esta splica frvida e soluante, Manuel lutava com a comoo que o invadia.
voltado com o impulso do homem que se precipita, ele estacava como suspenso por
uma fora ingente; entretanto o que o detinha era apenas a mo frgil de uma mulher.

Afinal, cedendo  fascinao, curvou-se lentamente para Catita, que viu ressumbrar-
lhe na fisionomia o soobro d'alma.

-- Ah! tu s bom! Tens d de mim!

-- No! exclamou Canho com veemncia.

Repelindo a moa arrebatadamente, ia correr ao lugar onde o esperavam os animais,
quando Catita com um mpeto bravio atalhou- lhe o passo:

-- Leva- me contigo ou mata- me! exclamou cerrando convulsivamente as mos do
gacho.

O olhar alucinado de Manuel pousou um momento no semblante de Catita e sondou a
profundeza do precipcio que se abria quase a seus ps, iluminado pelo lvido claro do
relmpago. Sua mo terrvel abarcou na cabea da moa as longas tranas negras,
revoltas pelo sopro da tempestade, e arrastou-a at a borda do abismo.

Rasgou- se nesse momento o cu e a meio do algar, suspenso aos galhos de uma
rvore seca, apareceu o cadver do chileno:

-- Olha! Ele te espera! disse Manuel suspendendo a moa para arremess- la no
precipcio.

Mas Catita lhe cingira os braos ao pescoo; seu hlito crestou- lhe o rosto. A esse
contato desamparou- o toda sua fora; os braos lhe caram inertes e ele afastou- se
com o passo trpego, vacilando como um brio. A moa, espavorida do que fizera,
seguia Manuel com um olhar pasmo.

Nesse momento um sopro glacial cortou como uma corrente de gelo a atmosfera
abrasada.




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O peito de Manuel dilatou- se num amplo respiro. Semelhante ao homem que sasse de
uma caverna abafada, ele bebia aquele ar frio s golfadas; com os lbios descerrados,
os braos abertos, parecia receber um amigo a quem estreitava ao peito.

-- O pampeiro!... exclamou.

O filho do deserto, assomando no horizonte, soltou seu primeiro bramido, que sibilou
no espao e fendeu como uma seta o ronco do trovo. Imediatamente as tempestades
que trotavam no firmamento fugiram pvidas para os confins da esfera, como um
bando de capivaras ouvindo o berro da jibia.

O pampeiro  a maior clera da natureza; o raio, a tromba, o incndio, a inundao,
todas essas terrveis convulses dos elementos no passam de pequenas iras
comparadas com a sanha ingente do ciclone que surge das regies plutnicas como o
gigante para escalar o cu.

Ei- lo, o imenso atleta que se perfila. Seu passo estremece a terra at as entranhas; a
floresta secular verga- lhe sob a planta como a fina relva sob a pata do tapir; seu brao
titnico arranca os penhascos, as nuvens, as tempestades, e arremessa todos esses
projteis contra o firmamento.

Luta pavorosa que lembra as revoltas pujantes do arcanjo das trevas precipitado pela
mo do Onipotente nas profundezas do bratro. O maldito, prostrado no seio das
chamas eternas, ressurge possesso levantando- se para ascender ao cu; nada lhe
resiste; a abbada do firmamento treme abalada por seu mpeto violento. Mas que
Deus incline a fronte, e Sat cair fulminado pelo olhar supremo.

O mpeto do tufo toma todas as formas da ferocidade; sua voz  a gama de todos os
furores indmitos. Ao v- lo, o terrvel fenmeno afigura-se uma tremenda exploso da
braveza, do rancor e da sanha que povoam a terra.

Aqui o pampeiro surge e arremete como cem touros selvagens escarvando o cho; ali
sente- se o convlvulo de mil serpentes que estringem as rvores colossais e as
estilhaam silvando; alm uiva a matilha a morder o penhasco donde arranca lascas da
rocha, como lanhos da carne palpitante das vtimas; agora so os tigres que tombam
de salto sobre a presa com um rugido espantoso. Finalmente ouve- se o ronco
medonho da sucuri brandindo nos ares a cauda enorme, e o frmito das asas do
condor que rui com hrrido estrdulo.

E tudo isto, sob um aspecto descomunal e imenso, no  seno a voz e o gesto do
gigante dos pampas, concitado das profundezas da terra, para subverter o orbe.

Manuel recobrara o alento respirando o ressolho do tufo, e vendo- se envolto por essa
grande alma do deserto. O fracasso dos rochedos arremessados s nuvens e
chocando- se no espao; o estrpito das florestas convulsas que estalavam entre as
garras do ciclone; o rudo das casas arrancadas ao cho que se desfaziam no ar
trituradas como um torro de argila; todos esses ecos de runa e devastao
deleitavam aquele corao enganado.




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O Gacho  Livro Terceiro | Jos de Alencar

                                                                       Pg. 107 de 107


O esprito de Manuel sentia naquele momento a necessidade de cavalgar o tufo como
a um corcel bravio, e precipitar- se com ele pelo espao, arrasando tudo em sua
passagem e matando em sua alma a sede horrvel que sentia de mortes, desastres e
catstrofes.

Quando ia montar na baia, outra vez o prendeu a mo de Catita que se precipitara
                                    -
com veemncia e esforava para ret lo. Mas repelindo-a com rudeza, saltou ele no
lombo da Morena que desapareceu como a folha arrebatada pelo sopro do pampeiro.

Levado pela corrida veloz, Manuel sentiu no peito uma constrio que em seu desvario
lhe pareceu de uma tenaz ardente. Catita se lanara na garupa da Morena no
momento de partir; era sua mo delicada que lhe esmagava o corao.

                            -
Sem foras para desprender se daquela cadeia, queimando- se ao tpido contato do
talhe voluptuoso da moa que estreitava-se com ele, o gacho soltou um bramido,
como se chamasse em socorro seu o pampeiro, e precipitou-se numa corrida louca e
esvairada, cuidando fugir assim ao tormento.

Mas abriu- se diante a fauce escncara do abismo. O plido claro da lua, surgindo
dentre as brumas da procela, iluminou o alcantil que sumia- se pelo antro profundo.
Agarrado a uma ponta de rochedo,  borda do despenhadeiro, via- se o busto de Flix
com a faca nos dentes, lutando com o tufo e devorando com os olhos a distncia que
ainda o separava do gacho.

A Morena ia estacar; Manuel, reclinando- se ao pescoo, gritou- lhe:

-- Upa!

Ouviu- se um anseio, um estridor de ramos partidos, o baque de um corpo no fundo do
algar, o estrupido de um galope ao longe; e a voz formidvel do ciclone cobriu todos
esses pequenos rumores. Sbito, porm, como se o filho do pampa s houvesse
deixado as estepes nativas para buscar o gacho e lev-lo ao deserto, a natureza
quedou- se. Cadver depois da tremenda agonia.

O sol despontava.

A manh lmpida e serena esparziu a doce luz por aquela terra convulsa. No meio dos
sobejos da borrasca, entre as estilhas dos troncos seculares, as farpas de rochedo e o
solo revolto, o tenro grelo da semente rompia o seio da terra; e a flor azul de uma
trepadeira estrelava suas ptalas aveludadas.

FIM




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